Da Aliança Terapêutica à Avaliação de Resultados do Tratamento das Dependências

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11 Mar / Da Aliança Terapêutica à Avaliação de Resultados do Tratamento

A Aliança Terapêutica

A aliança terapêutica pode ser um dos factores centrais no contexto de tratamento das dependências em Comunidade Terapêutica. E, principalmente, também pode ser entendida como um agente de mudança.

Este conceito tem sido alvo de múltiplos estudos. Edward S. Bordin, por exemplo, foi um dos teóricos que estudou amplamente o conceito. Bordin diz que independentemente do paradigma metodológico de intervenção a aliança terapêutica pressupõe três elementos principais.

> Em primeiro lugar, o acordo (implícito ou explicito).

> Em segundo lugar, o vinculo emocional e o acordo quanto às tarefas que possibilitarão a mudança.

> Por fim, o sucesso do tratamento pode ficar condicionado se um destes elementos falha.   

 

Na Dianova, e relativamente ao acordo, o(a) Utente assina o Contrato Terapêutico no momento da sua admissão, que define os termos em que decorrerá o seu tratamento. Este momento, simbólico mas muito importante, ocorre entre o(a) utente o(a) e o(a) monitor(a) que o recebe. E reforça, desde o primeiro momento, a adesão a um processo de mudança significativa.

No que ao vinculo emocional se refere, a aliança terapêutica enquanto relação de trabalho com os(as) nossos(as) utentes desenvolve-se numa lógica de proximidade. Proximidade óptima, a proximidade que permite estar próximo o suficiente do(a) utente. Esta produz uma onda de empatia, conforto e aconchego sem perder “acuidade visual” e a objectividade. Ou seja, sem ultrapassar as fronteiras da relação terapêutica.

Nessa medida, cremos que na base de um programa de tratamento estão os modelos teóricos, as técnicas e as actividades. Mas o que serve de catalisador de mudança é a relação, o vínculo que se constrói e se desenvolve ao longo do mesmo. É, sobretudo, mais que uma relação de ajuda. Trata-se de uma relação que deve contribuir para devolver  aos nossos(as) utentes a confiança necessária para se tornarem funcionais e independentes.

 

A terapia cognitivo-comportamental no tratamento das dependências na Dianova

Acreditamos que é no espaço desta relação que desponta o início de um novo pensar, de uma nova percepção. Através de uma abordagem cognitivo-comportamental, desenvolvemos uma diversidade de actividades. Dessa forma, permitem avaliar, por comparação, as consequências das condutas do indivíduo e de que forma elas se mantêm ou não.

Fomentamos um forte investimento na pedagogia do quotidiano, por exemplo, participação em actividades ocupacionais, responsabilização de tarefas da vida diária, gestão saudável dos tempos livres. Nesse sentido, o(a) utente consegue percepcionar às mudanças ocorridas. Por outro lado, numa lógica recursiva, acede a novos níveis de mudança e processa novas informações que darão lugar a novos comportamentos. Estes irão beneficiar tanto o próprio indivíduo quanto as pessoas ao seu redor.

A este nível é também importante mencionar a figura do Monitor. A sua profícua intervenção fomenta junto dos(as) utentes  duas vertentes fundamentais. Por um lado, o desenvolvimento das atividades diárias da Comunidade. Por outro lado, oferece a possibilidade a estes(as), através de uma relação próxima, de verem o seu empenho, motivação, habilidades reconhecidas e validadas.  Esta figura aparece para muitos(as) utentes, como a figura de referência que oferece a inserção de novos valores e o contacto com um vínculo seguro.

 

A Avaliação das Expectativas de Resultados do Tratamento

Outro factor que facilita a compreensão dos(as) utentes do seu percurso evolutivo, é a avaliação. Ao longo do seu programa de tratamento a equipa multidisciplinar da Dianova procede a uma avaliação a três níveis.

> Auto-avaliação.

> Heteroavaliação (avaliação de pares).

> Avaliação pela Equipa Multidisciplinar.

 

A informação reunida nestes três momentos é depois organizada pelos diferentes parâmetros. Nomeadamente:

> Estado Físico.

> Estado Psicológico.

> Integração na Dinâmica Comunitária/Assumpção de Normas numa avaliação de passagem de primeira fase para a segunda fase do programa.

> Consolidação da Decisão de Ruptura com os Consumos.

> Valorização.

> Empenhamento/Responsabilidade.

> Autodomínio.

> Auto-Estima.

> Competências Laborais e Sociais.

> Relações Familiares/Interpessoais nas avaliações posteriores.

 

De seguida, é comunicada, mediante apresentação de objectivos específicos, o que constitui o Plano Individual de Tratamento. A individualização do programa de tratamento torna-o mais flexível e adaptado e deste modo garante a focalização na concretização das aspirações, bem-estar e realização pessoal dos(as) nossos(as) utentes. 

A chegada dos(as) nossos(as) utentes à implementação do seu projecto de vida, isto é, ao momento da sua reintegração social é para muitos um momento gerador de angústia, de incerteza e de algum temor. Desta forma, aliada às competências e recursos de cada indivíduo está, como factor preditivo de sucesso, uma forte aliança terapêutica que foi construída ao longo do tratamento. A minha experiência leva-me a dizer que, muitas vezes, o que existe no tratamento é o espaço de relacionamento que permite a emergência de novas narrativas e a construção de novos significados.

               

Dr.ª Rafaela Oliveira, Monitora – Assistente Social, Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas Dianova.

10 de Março de 2019