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22 Jul / Consumo de drogas aumenta 30% a nível mundial

Principais conclusões e implicações políticas do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Drogas 2020

 

De acordo com este Relatório, estima-se que 269 milhões de pessoas consumiram drogas em 2018, registando-se desde 2009 um aumento de 30% nos consumos. Estimam-se em 192 milhões os consumidores de cannabis, 58 milhões de opióides, 27 milhões de anfetaminas, 21 milhões de ecstasy e 19 milhões de cocaína. Apesar de a cannabis ser a substância ilícita mais usada, os opióides são os que causam mais danos, representando 66% das 167.000 mortes relacionadas o abuso de substâncias.

 

O Relatório Mundial sobre Drogas 2020 proporciona uma fonte de riqueza de informações e análises diversas. Estes dados são fundamentais para auxiliar a comunidade internacional na implementação de recomendações operacionais sobre vários compromissos assumidos pelos Estados-Membro.

 

Principais conclusões

(Excerto do prefácio de Ghada Waly, Directora Executiva do UNODC)

> 269 milhões de pessoas consumiram drogas em 2018, representando um aumento de 30% em relação a 2009.

> 6 milhões de pessoas sofrem de perturbações pela utilização de substâncias no mundo.

> 1 em cada 8 pessoas recebeu tratamento.

> Enquanto 1 em cada 3 consumidores de drogas é do sexo feminino, apenas 1 em cada 5 pessoas em tratamento representa este universo.

> Apreensões de anfetaminas quadruplicaram entre 2009 e 2018.

> Mais de 80% da população mundial não acede a medicamentos controlados para alívio da dor e outras utilizações médicas essenciais.

 

Impacto da COVID-19 no consumo e tráfico de drogas

 

As medidas implementadas para impedir a propagação da COVID-19 afectaram diversos aspectos dos mercados de drogas ilícitas, desde a produção ao tráfico. Entre eles, constata-se a escassez de substâncias psicoactivas que poderá provocar uma redução geral do consumo. Este é o caso das drogas que são consumidas principalmente em locais de lazer, como bares e discotecas. Todavia, principalmente no caso da heroína, esta escassez pode levar ao consumo de outras substâncias nocivas, bem como a padrões de consumo mais prejudiciais.

 

O impacto da pandemia nos mercados de drogas é desconhecido e difícil de prever a longo prazo. No entanto, como consequência da COVID-19, os mercados de drogas poderão sofrer alterações geradas pela desaceleração económica e restrições associadas à pandemia. Com o aumento do desemprego e a falta de oportunidades de trabalho é provável que as pessoas mais vulneráveis venham a envolver-se em padrões nocivos relacionados com o consumo de drogas, sofrendo de co-morbilidades físicas e psiquiátricas ou envolvendo-se em actividades ilícitas ligadas ao tráfico, quer a nível da produção ou da distribuição.

 

> Declaração de Posição do CSFD a nível da Covid-19

> Declaração do especialista da ONU sobre o direito à saúde

> Serviços de Tratamento das Dependências são Serviços Essenciais

 

Crescimento dos mercados de drogas

 

O consumo de drogas em todo o mundo tem vindo a aumentar. Em 2009, os 210 milhões de consumidores representavam 4,8% da população global com idade entre 15 e 64 anos. Comparativamente, em 2018, o número aumentou para 269 milhões de consumidores, ou seja 5,3% da população.

 

Relatório Mundial sobre Drogas 2020 mercados globais de drogas ilícitasO mercado global de drogas está a expandir-se e é mais complexo – Fonte: World Drug Report 2020

 

Nas últimas duas décadas, verificou-se um aumento muito mais rápido do consumo de drogas nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Este aumento reflecte:

> por um lado, as diferenças no crescimento populacional geral no mesmo período, nomeadamente, 7% nos países desenvolvidos e 28% nos países em desenvolvimento.

> e, por outro lado, no crescimento mais rápido da população jovem nos países em desenvolvimento. Nestes países, os adolescentes e jovens adultos representam a maior parte dos consumidores de drogas. Entre de 2000 a 2018, enquanto esta faixa etária aumentou 16% nos países em desenvolvimento, nos países desenvolvidos diminui 10%.

 

Aumento da complexidade dos mercados de drogas

 

Os mercados de drogas estão a tornar-se cada vez mais complexos. Para além das substâncias de origem vegetal, como a cannabis, cocaína e heroína, verifica-se o aparecimento de centenas de drogas sintéticas, muitas das quais não estão sob controlo internacional. Por outro lado, constata-se um aumento significativo do uso não-médico de medicamentos prescritos.

 

Aproximadamente 500 novas substâncias psicoactivas (NSP) encontram-se anualmente disponíveis nos mercados dos Estados-Membro. A maioria das NSP são estimulantes, seguindo-se as agonistas sintéticas dos receptores de canabinóides e, em número menor, de opióides. A proporção das NSP opióides, que representava apenas 2% do número de NSP identificadas em 2014, aumentou para 9% em 2018.

 

As NSP opióides, muitos delas análogas ao fentanil, são significativamente potentes e nocivas, tendo sido responsáveis pelo aumento das mortes por overdose na América do Norte e, em menor grau, noutras regiões.

 

Apesar de as NSP, a nível individual, raramente terem conseguido estabelecer o seu próprio mercado de forma expressiva, evidências da Europa sugerem que os canabinóides sintéticos constituem um problema considerável junto dos sectores marginalizados da sociedade. Por exemplo, a nível da população sem-abrigo ou da prisional.

 

Alterações políticas e tendências

 

O Canadá, Uruguai e 11 jurisdições nos Estados Unidos permitem a produção e venda de produtos de cannabis para uso não-médico. Constata-se que o uso de cannabis está a aumentar, não só na maioria das jurisdições Norte-Americanas em que o uso não-médico foi legalizado, mas também naquelas em que não foi legalizado.

 

Estará a legalização por trás da queda global nas apreensões de cannabis? As apreensões globais de cannabis caíram em 2018 para o nível mais baixo das duas últimas décadas. Uma queda resultante do declínio de 84% das apreensões nos últimos 10 anos na América do Norte. Todavia, no resto do mundo as apreensões praticamente duplicaram durante o mesmo período. O padrão das apreensões sugere que as políticas orientadas à liberalização dos mercados de cannabis tiveram um papel fundamental neste declínio.

 

Os medicamentos para o alívio da dor e cuidados paliativos encontram-se distribuídos de maneira desigual entre as regiões. Em 2018, mais de 90% de todos os opióides farmacêuticos de prescrição médica encontravam-se disponíveis nos países mais ricos.

 

Por regiões, a América do Norte dispunha de 50% dos medicamentos opióides, a Europa 40% e a Oceania 2%. Estas regiões têm cerca de 12% da população global. Comparativamente, os países de baixos e médios rendimentos, com cerca de 88% da população global, dispõem de menos de 10% dos opióides farmacêuticos.

 

Factores de risco associados ao consumo de drogas

 

Em 2018, cerca de 35,6 milhões de pessoas sofreram de perturbações pela utilização de substâncias. A pobreza, a baixa escolaridade e a marginalização social são factores que podem aumentar o risco destas perturbações e agravar as suas consequências.

 

A nível global, as pessoas com perturbações pela utilização de substâncias continuam a ter uma menor disponibilidade e acesso limitado aos serviços de tratamento. Anualmente, apenas 1 em cada 8 pessoas recebe tratamento. E, embora 1 em cada 3 consumidores seja do sexo feminino, apenas 1 em cada 5 pessoas em tratamento representa este universo.

 

As consequências nocivas dos opióides

 

Número de consumidores de drogas, 2018 – Fonte: World Drug Report 2020

 

Apesar de a cannabis ser a substância mais utilizada, os opióides são as drogas que causam danos mais nocivos. Os opióides foram responsáveis por 66% das 167.000 mortes estimadas relacionadas com perturbações pela utilização de substâncias em 2017. E por 50% dos 42 milhões de pessoas com incapacidade ou morte precoce em consequência do consumo de drogas.

 

Enquanto que na África Ocidental, Central e do Norte, o tramadol é responsável pela crise dos opióides, na América do Norte o fentanil é a substância principal. Estas sub-regiões têm pouco em comum em termos económicos, demográficos ou padrões gerais de consumo de drogas. No entanto, constata-se que as substâncias de fácil acesso e de produção mais barata estão a impulsionar o aumento da crise dos opióides.

 

Na América do Norte, o uso de opióides sintéticos como o fentanil tem sido responsável por duas décadas de aumento das mortes por overdose. Em 2018, esta droga foi a causa de 2/3 das 67.367 mortes por overdose nos Estados Unidos e no Canadá, embora neste último em menor proporção. As mortes por overdose atribuídas ao fentanil são, em parte, causadas pela imprevisibilidade da sua potência.

 

Na África Ocidental, Central e do Norte, o mercado para uso não-médico de tramadol aumentou consideravelmente, encontrando-se um número crescente de pessoas com perturbações pela utilização desta droga a receber tratamento.

 

O consumo de estimulantes está a aumentar

 

A cocaína e metanfetaminas dominam o mercado das drogas estimulantes, estando o seu consumo a aumentar. Em 2018, cerca de 19 milhões de pessoas consumiram cocaína, uma droga cada vez mais popular na América do Norte e Europa Ocidental. Por outro lado, aproximadamente 27 milhões de pessoas consumiram anfetaminas no mesmo ano, especialmente no sudeste da Ásia.

 

COVID-19 aumenta os riscos nas pessoas que usam drogas por via injectável

 

Em 2018, cerca de 11,3 milhões de pessoas consumiram drogas por via injectável. Uma prática responsável por aproximadamente 10% das infecções por HIV em todo o mundo. Mais de 1 milhão de pessoas que usam drogas por via injectável vivem com HIV e 5,5 milhões com hepatite C.

 

A escassez de opióides causada pelas restrições da pandemia COVID-19 pode levar os consumidores a substitui-los por substâncias mais facilmente acessíveis como álcool ou benzodiazepinas, ou a mistura com drogas sintéticas. Poderão surgir padrões de consumo mais prejudiciais à medida que alguns consumidores mudem para um uso injectável ou injectando com maior frequência.

 

Por outro lado, a crise financeira e as regras de distanciamento social terão impacto nas pessoas que usam drogas por via injectável. Quer por ficarem mais vulneráveis à infecção pela COVID-19, quer por complicações da doença devido ao seu sistema imunológico mais enfraquecido. Por outro lado, muito provavelmente terão maiores dificuldades em aceder a tratamento e outros serviços de saúde que se encontram actualmente sob pressão resultante da pandemia.

 

Por último, é de salientar que a abordagem ao problema do uso e tráfico de drogas requer a implementação de uma linha de políticas de drogas em paralelo com a agenda mais ampla da ONU para o desenvolvimento sustentável. Particularmente, a nível de saúde, direitos humanos, paz e segurança.

 

Artigo de Pierre Bremond, cortesia da Dianova International

 

Sobre a Dianova Portugal: o nosso objectivo é oferecer tratamento da dependência de drogas e do alcoolismo baseado em evidências científicas e com certificação em gestão da qualidade ISO 9001.

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