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09 Jun / Dia Internacional do Brincar: Escolhe Brincar, Todos os Dias

Desde 2024, o Dia Internacional do Brincar celebra-se a 11 de junho para promover o papel fundamental do brincar no desenvolvimento e bem-estar.

 

O Dia Internacional do Brincar é celebrado em mais de 140 países, numa iniciativa das Nações Unidas que, à primeira vista, pode parecer supérflua tendo em conta as múltiplas crises que a humanidade enfrenta. Não faltam, de facto, crises: desde a emergência climática e guerras, ao aumento do autoritarismo, desigualdades sociais e a pandemia de desinformação que mina a confiança e dificulta soluções colaborativas.

Na Dianova, contudo, saudamos esta iniciativa. Se queremos enfrentar estas crises e salvaguardar o futuro das próximas gerações, precisamos do envolvimento de todos, especialmente das crianças e adolescentes de hoje. Para tal, é essencial apoiá-los, promover a saúde mental e física e preservar o seu bem-estar. É por isso que o Dia Internacional do Brincar é tão importante: destaca o papel essencial do brincar no desenvolvimento infantil, na qualidade de vida dos jovens e ao longo de toda a vida.

 

Brincar é importante em qualquer idade, mas na infância faz toda a diferença!

Brincar ajuda as crianças a adquirir competências psicossociais essenciais, transferíveis para as áreas física, social, cognitiva, emocional e de comunicação em qualquer idade. Estudos demonstram que o brincar é vital para desenvolver capacidades de resolução de problemas, colaboração e criatividade. Também reduz o stress e promove a regulação emocional.

No contexto educativo, a aprendizagem lúdica torna o processo mais envolvente, motivador e eficaz

Brincar é sinal de que as crianças se sentem seguras, cuidadas e amadas. Sentem que podem ser crianças, mesmo em tempos difíceis.” – Catherine Russell, Diretora Executiva da UNICEF

Brincar também tem efeitos positivos na promoção da tolerância e resiliência, facilitando a inclusão social, a prevenção de conflitos e a construção da paz. Por isso, o artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas consagra o brincar como um direito fundamental de todas as crianças.

O brincar livre, em particular, contribui para o desenvolvimento de ligações neurais essenciais ao crescimento e aprendizagem futura. É igualmente importante para a inteligência emocional, incluindo competências como a regulação emocional, a comunicação eficaz e empatia.

Por outro lado, restringir as oportunidades de brincar prejudica diretamente o bem-estar e o desenvolvimento das crianças. A privação do brincar pode conduzir a perturbações do desenvolvimento social, emocional e cognitivo. Estudos indicam que a falta de brincar pode originar uma geração de adultos com níveis mais elevados de ansiedade, tendência para a insatisfação e menos competências sociais e empatia.

 

Diferentes tipos de brincadeira 

O brincar é o primeiro veículo de aprendizagem para as crianças. Todos – bebés, crianças em idade escolar e adolescentes – precisam de tempo suficiente para brincar diariamente. Ao permitir que sejam ativas, criativas e sigam as suas próprias ideias, o brincar é fundamental para o desenvolvimento de competências físicas, mentais e sociais.

Costumamos falar do brincar como uma pausa na aprendizagem séria. Mas para as crianças, brincar é aprendizagem séria. Brincar é o verdadeiro trabalho da infância.” – Fred Rogers

É importante proporcionar um equilíbrio entre brincadeiras estruturadas e não estruturadas, pois cada tipo promove diferentes aspetos do desenvolvimento. Os jogos estruturados são organizados por adultos e envolvem seguir instruções ou regras para cumprir uma tarefa, como jogos de tabuleiro, caça ao tesouro ou atividades extracurriculares.

Já o brincar livre, ou não estruturado, é aquele em que as crianças participam de forma independente, sozinhas ou em grupo. Estes jogos autodirigidos são um fim em si mesmos, não fazendo parte de uma atividade organizada. Exemplos incluem construções em lego, criar mundos imaginários e brincar ao faz de conta. O brincar livre é essencial porque estimula a imaginação, a resolução de problemas e as competências sociais.

 

Declínio do Brincar Livre 

Que memórias guardamos das brincadeiras da nossa infância? Alguns recordarão jogos como escondidas, corridas de bicicleta ou jogar à bola na rua. Outros lembrar-se-ão dos jogos improvisados no pátio do prédio ou de brincar em mundos imaginários com bonecas e/ou figuras preferidas. E há quem recorde as possibilidades infinitas dos primeiros dias de verão, as aventuras e as longas tardes passadas com amigos no banco do jardim ou na praia. Para a maioria, as brincadeiras eram organizadas por nós próprios, preenchendo as férias e muito do tempo livre durante o período escolar.

 

 

Será que as crianças de hoje têm as mesmas oportunidades de brincar? A resposta é não, pelo menos nas sociedades ocidentais. As crianças de hoje têm menos liberdade do que as gerações anteriores. Segundo um estudo de Helen Dodd, da Universidade de Reading (Reino Unido), assistimos a um “confinamento progressivo” da infância: as crianças têm menos liberdade e estão sujeitas a maior controlo dos adultos.

Desde cerca de 1955, o brincar livre das crianças tem vindo a diminuir, em parte devido ao aumento do controlo dos adultos sobre as suas atividades.” – Peter Gray, professor emérito de psicologia no Boston College, no American Journal of Play (“The Decline of Play and the Rise in Psychopathology”)

Gray descreve o brincar não estruturado e livremente escolhido como um campo de testes para a vida. Permite às crianças adquirir as experiências necessárias para se tornarem adultos confiantes e competentes. O seu artigo, publicado há quase quinze anos, já alertava para as consequências do declínio do brincar, considerando-o uma perda significativa a ser combatida para o bem das crianças e da sociedade. E a situação não melhorou desde então.

Hoje, crianças de doze anos têm menos oportunidades de brincar livremente e de explorar a psicomotricidade do que crianças de seis anos nos anos 80.

As razões prendem-se com os receios habituais dos adultos relativamente ao crime e acidentes rodoviários, mas também com o apelo dos videojogos e jogos online, que reduzem o interesse pelas brincadeiras ao ar livre. O desejo dos pais de proteger os filhos é legítimo, mas ao preocuparmo-nos demasiado com os perigos exteriores, esquecemo-nos dos riscos reais de os manter fechados em casa, à mercê dos meios digitais e online de lazer: inatividade, isolamento, tédio e pior saúde física e mental.

 

Impacto na Saúde Mental 

No seu artigo, Gray relata um aumento significativo da ansiedade e depressão entre adolescentes e jovens adultos desde 1950. Os estudos citados mostram que cinco a oito vezes mais crianças e estudantes relatam sofrer de depressão ou ansiedade clinicamente significativa do que há cinquenta anos. Outro estudo destaca que o número de pessoas afetadas por perturbações de ansiedade aumentou mais de 55% entre 1990 e 2019

O stress crescente afeta o bem-estar mental de todas as idades. Segundo pesquisas, 85% dos países reportaram aumento da ansiedade e depressão, sobretudo entre os jovens, que enfrentam um rápido declínio do bem-estar psicológico.

A OMS estima que o stress é um fator causal fundamental na depressão e sublinha a necessidade de considerar este fator para melhorar a saúde mental global.

Existem muitas causas para o aumento do stress e dos problemas de saúde mental, e não se relacionam apenas com o declínio do brincar livre. As múltiplas crises atuais também são um fator importante.

Uma coisa é certa: muitas famílias sofrem e é essencial reconhecer esta realidade com empatia. Em vez de a ignorar, devemos apoiar e acompanhar essas famílias. Os pais podem encontrar um equilíbrio entre permitir que os filhos brinquem livremente, essencial para o seu desenvolvimento emocional, e apoiá-los ativamente nas aprendizagens e atividades desportivas, em segurança. Com apoio e compreensão, é possível criar ambientes onde as crianças crescem felizes e realizadas.

Perante os desafios atuais, seria igualmente problemático acreditar que nada pode ser feito. As crianças reproduzem e interiorizam as narrativas negativas do mundo adulto, modelando a sua perceção do mundo com base no que dizemos e fazemos.

No que toca às alterações climáticas e respetivas soluções, por exemplo, devemos ser exemplo para os nossos filhos ao consumir menos, viajar menos e reduzir o consumo de carne. Nem tudo depende dos políticos ou das grandes empresas — as nossas ações individuais também contam. Não são significativas em termos quantitativos, mas mostram às crianças a importância de participar e agir, mudando a narrativa que ouvem.

 

O que Diz a Ciência sobre o Brincar

O brincar é uma ferramenta importante para enfrentar a crise de saúde mental que vivemos. Pesquisas em animais – porque não só os humanos brincam – mostram que ratos jovens que brincam às escondidas ou a lutar tornam-se  emocionalmente mais maduros. As áreas do cérebro dedicadas à resolução de problemas também se desenvolvem mais.

Estudos em humanos indicam que o brincar promove o bem-estar e a socialização, além de desenvolver competências sociais, emocionais e cognitivas, e contribuir para a formação de ligações neurais que reduzem a ansiedade e aumentam a resiliência face a experiências negativas.

A investigação demonstra que o brincar está profundamente enraizado no desenvolvimento humano e ajuda a moldar o cérebro à medida que crescemos.

Por fim, há vasta investigação sobre a importância do brincar para a aprendizagem. O Dr. Michael Yogman, da Universidade de Harvard, revê grande parte desta evidência num artigo intitulado “The Power of Play”. Destaca-se ainda a iniciativa “Happy Schools” da UNESCO, que promove uma mudança de paradigma nas escolas, incentivando a aprendizagem lúdica para o bem-estar e empoderamento das crianças.

 

Promover o Brincar para um Futuro Melhor

O brincar caracteriza-se pela motivação intrínseca, envolvendo a liberdade de suspender a realidade através da visualização, imaginação e controlo interno. É um processo espontâneo e flexível, realizado por prazer, relaxamento e satisfação de necessidades imediatas ou a longo prazo.

A ciência do brincar realça a sua importância no desenvolvimento e bem-estar humano, sublinhando a necessidade de garantir espaço suficiente para brincar na infância e ao longo da vida.

No entanto, o brincar não é exclusivo das crianças. Estudos realçam a importância do brincar para adultos, especialmente pelos benefícios para a saúde mental, física e emocional. Participar em atividades lúdicas ajuda os adultos a lidar com o stress, estimulando a produção de endorfinas e reduzindo os níveis de cortisol, permitindo relaxar e melhorar o bem-estar geral.

 

Independentemente da idade ou ocupação, brincar é para todos. Um ex-primeiro-ministro britânico admitiu jogar Angry Birds após longos dias de trabalho. David Beckham, estrela do futebol, já falou sobre o seu gosto por Lego, uma paixão de infância que ainda o ajuda a relaxar. E é bem conhecido que presidentes americanos adoram golfe — dezasseis dos últimos vinte presidentes praticaram ou praticam regularmente este desporto.

Do ponto de vista biológico e evolutivo, o brincar é a forma que a natureza encontrou para garantir que os mamíferos, incluindo os humanos, adquirem as competências necessárias para se desenvolverem harmoniosamente na idade adulta.” – Peter Gray, numa TED Talk

 

O Dia Internacional do Brincar visa promover a união a nível global, nacional e local, destacando a importância do brincar. Por isso, a Dianova junta-se ao apelo por políticas, formação e financiamento para integrar o brincar na educação e nas comunidades em todo o mundo.

 

Com a cortesia da Dianova International, este artigo resulta de uma tradução e adaptação do texto original, disponível aqui 

 

By Marta Santos in Noticias