Entrevista Dr Suzete Frias Directora Regional Saúde Açores

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07 Set / Entrevista Dr Suzete Frias Directora Regional Saúde Açores

REVISTA EXIT® | Entrevista Dr.ª Suzete Frias, Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências, Secretaria Regional de Saúde, Governo Regional dos Açores

 

Dianova: Quais os principais desafios no contexto das dependências que a Região dos Açores enfrenta na actualidade?

Suzate Frias: A Região Autónoma dos Açores apresenta prevalências de consumos aditivos superiores às observadas a nível nacional. Torna-se importante compreender se existem variáveis regionais especificas que justifiquem estas diferenças.

Sendo uma região marcada pela descontinuidade geográfica, onde, apesar de existir alguma proximidade entre as ilhas, estas são marcadas por uma índole geográfica especifica (grande afastamento e insularidade). Este isolamento geográfico pode estar a contribuir para as elevadas prevalências do consumo de substâncias psicoativas observadas no arquipélago dos Açores.

Paralelamente a isso e no nosso entender, a descontinuidade geográfica e consequente insularidade podem promover o desenvolvimento de particularidades socioculturais em cada uma das 9 ilhas. Tal leva a especificidades e condicionalismos, em cada ilha, que se poderão traduzir em diferenças ao nível dos fatores de risco e proteção para o consumo de substâncias psicoativas.

Assim, o Governo dos Açores adjudicou um Estudo Projeto Vida+ à Universidade dos Açores, levado a cabo em cada uma das ilhas, para que face as especificidades encontradas, possa delinear e implementar medidas territorializadas. A territorialização das respostas gera a oportunidade de criar medidas, em função das reais necessidades das populações.

 

Dianova: A prevenção é um investimento eficaz para o bem-estar das crianças, jovens, famílias e comunidades inteiras. Estudos demonstram quepodemos poupar 30 vezes a quantidade investida na prevenção de drogas em futuros custos sociais e de saúde. Que investimento tem estado a ser realizado, ou previsto, a nível de campanhas ou iniciativas de prevenção indicada, selectiva ou universal no arquipélago dos Açores?

 

Suzete Frias: O XII Governo Regional dos Açores assumiu como uma das prioridades de ação para a área da Saúde, a necessidade de se consolidar a implementação da Estratégia Regional para a Promoção de Estilos de Vida Saudável e Prevenção de Comportamentos de Risco.

Mediante tal facto, a Secretaria Regional da Saúde entendeu como vital uma ação interventiva que promova adequadas competências parentais em figuras “cuidadoras” de crianças e jovens. Numa linha de prevenção de condutas de risco das gerações mais jovens, na área das adições.

Desta forma, o Governo dos Açores irá implementar a partir de setembro o Programa Prevenir em Família e Comunidade. Uma estratégia que se centrará, entre outras iniciativas, na implementação do Programa de Competências Familiares (PCF), adaptado para a realidade portuguesa.

Assim e a partir da constituição de um conjunto de equipas técnicas, formadas e supervisionadas por uma Unidade Técnica e Cientifica sediada junto da Direção Regional de Prevenção e Combate às Dependências, irá ser efetivada a aplicação do Programa em todo o arquipélago. Numa dupla lógica – por um lado, por via de uma aposta de prevenção universal, para pais e filhos (envolvendo crianças com idades entre os 6 e os 11 anos de idade). E por via de uma estratégia de prevenção seletiva, quando identificados em determinados grupos populacionais, fatores de risco específicos.

E tem na fase de estruturação e construção o Projeto Trajeto Seguro 0, uma proposta de prevenção universal e seletiva de intervenção precoce. Uma iniciativa que se vai operacionalizar como projeto piloto em três territórios vulneráveis da Região. Este tem como objetivos:

> Gerar condições pré-natais adequadas aos pais e potenciar o desenvolvimento saudável da criança.

> Melhorar as relações familiares, pela promoção de um aumento dos níveis de comunicação, das vinculações seguras, da empatia e da coesão intra agregado.

 

Planeamento Familiar e Ambiente Noturno

Paralelamente, pretende-se aumentar os níveis de planificação e organização familiar, os tempos de coabitação de qualidade e efetivar uma diminuição dos conflitos no sistema. E aumentar as habilidades parentais, proporcionando um maior número de conhecimentos aos pais, para que exerçam com mais qualidade os seus papéis no seio da família.

Adicionalmente, pretende-se aumentar a auto-estima dos “cuidadores” e a eficácia parental, com um reforço de uma atitude positiva e disciplinar eficaz, que contribua para uma redução do stress parental. E intervir ao nível da prevenção de riscos psicossociais no período pré-natal e pós-natal, quer nas figuras parentais, quer nos respetivos “descendentes”. Investindo também na realidade comunitária (ao nível da cobertura das “outras” necessidades de desenvolvimento infantil.

No contexto Recreativo Noturno desenvolve em parceria com a Casa do Povo Santa Bárbara, o Programa Giros que tem como objetivo a prevenção seletiva e minimização de riscos neste contexto.

 

Dianova: Atualmente, está em debate em Portugal a legalização da cannabis terapêutica. Que tem em consideração as experiências internacionais de países como o Uruguai, Holanda e estados norte-americanos como Washington, Colorado ou Califórnia. Qual a posição da Secretaria Regional dos Açores relativamente a esta questão tendo em conta os efeitos e consequências relacionados?

 

Suzete Frias: Importante demarcarmos muito claramente nesta reflexão a separação entre o uso terapêutico da canábis e o seu uso recreativo, porque a canábis pode ser administrada em determinadas situações de doença.

É conveniente neste momento, e uma vez que esses países estão a experimentar, aguardar e perceber o impacto da legalização. Qual o efeito que vai ter no consumo entre os jovens, por exemplo. Apesar das especificidades, estas experiências que alguns países estão a levar a cabo, podem funcionar como um laboratório para os Açores.

Importante ter em conta que a Cannabis é uma substância psicoativa perturbadora, não é inócua como muitas vezes se quer fazer crer, É importante aguardar pelas evidências científicas e continuarmos a fazer prevenção e a trabalhar competências nos jovens para uma decisão responsável.

 

Dianova: A qualidade do serviços prestados e respetiva avaliação de resultados a nível de tratamento das dependências é um pré-requisito para uma parceria entre os serviços de saúde dos Açores e organizações sociais prestadoras dos mesmos numa lógica de proximidade? Quais os principais benefícios resultantes desta cooperação para as entidades e utentes/famílias?

 

Suzete Frias: O Governo dos Açores está a criar uma rede regional de referenciação que tem como objetivo a otimização das sinergias em cada território, baseando-se no conhecimento da realidade.

Para além do diagnóstico dos problemas pretende-se identificar as potencialidades para a mudança, no contexto de intervenção, bem como os recursos e respostas disponíveis, com a participação e definição de papeis de todos.

Esta rede vai permitir alargar a este âmbito novos agentes e novas intervenções, de modo a permitir uma resposta que efetivamente atenda à complexidade da pessoa em todas as suas dimensões.

O benefício que decorre da cooperação entre todos os agentes e sobretudo para o utente e famílias é a disponibilização de respostas, que não se centrem apenas na doença. Mas que promovam a saúde e o bem-estar da pessoa. Com o propósito de reforçar os laços familiares e sociais dando um sentido de pertença, e, de promover as competências pessoais e sociais nos diferentes contextos onde estes se relacionam.

 

Dianova: O tratamento (das dependências) resulta. Que medidas disponibiliza a Região de Saúde dos Açores, em articulação com outras estruturas do Governo Regional, para potenciar uma efetiva e bem-sucedida reintegração socioprofissional após o tratamento?

 

Suzete Frias: O Governo dos Açores decidiu priorizar e ampliar a abordagem e as respostas do âmbito dos Comportamentos Aditivos e Dependências (CAD), numa perspetiva transversal, intersectorial e integrada.

No que diz respeito à Secretaria Regional da Saúde e no que  concerne à diminuição dos problemas ligados ao álcool temos o Plano de Ação para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool. Envolve parcerias com os recursos da sociedade civil e outros departamentos governamentais em duas dimensões, redução da procura e da oferta. E está em constituição como instrumento operacional do mesmo o Fórum Regional Álcool e Saúde que envolve vários parceiros entre os diversos departamentos governamentais e da sociedade civil.

É uma aposta importante no domínio das políticas deste Governo- Estas problemáticas contêm em si riscos e custos aos quais é importante fazer face pelas consequências e impacto que têm na vida da pessoa, das famílias e da sociedade.      

 

 

Dianova: Na senda do alcance dos objetivos da Agenda 2030 e em particular o ODS Saúde de Qualidade, que medidas estão a ser planeadas ou implementadas neste sector para o atingir este objetivo no arquipélago dos Açores?

 

Suzete Frias: Enumero infra alguns dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável e ações no âmbito da Direção Regional da Prevenção e Combate às Dependências de modo a atingi-los na RAA.

> acabar com as epidemias de sida, tuberculose, malária e doenças tropicais negligenciadas, e combater a hepatite, doenças transmitidas pela água e outras doenças transmissíveis.

Está em curso a elaboração de um Protocolo entre a Direção Regional de Prevenção e Combate às Dependências com a ABRAÇO, que tem como objectivos:

> Criar uma rede de instituições e profissionais devidamente formados e capazes de dar resposta no âmbito do VIH/Sida, das hepatites víricas e das IST. Desde o rastreio, à ligação aos cuidados de saúde e à retenção em tratamento. E cumprindo as guidelines nacionais e internacionais e de acordo com o melhor conhecimento científico disponível.

> Aumentar o conhecimento do estatuto serológico da população em geral e do seu conhecimento sobre o VIH, hepatites víricas e outras IST.

> Aumentar o conhecimento dos adolescentes sobre o VIH, hepatites víricas e outras IST. Com especial incidência nos modos de transmissão, métodos de proteção e trabalho da resiliência emocional.

> Aumentar o awareness da população em geral sobre a temática dos direitos sexuais e de género.

 

Outros dos objetivos a alcançar são:

> reduzir num terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar.

> reforçar a prevenção e o tratamento do abuso de substâncias, incluindo o abuso de drogas e o uso nocivo do álcool.

> fortalecer a implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco em todos os países, conforme apropriado.

> Reforço e implementação das consultas de cessação tabágica em todas as Unidades de Ilha.

> Implementação do Programa Domicílios e Carros 100% sem fumo a todos os alunos do 4º ano na RAA.

> Implementação do Plano de Ação Regional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e Dependências.

> Implementação do Plano de Ação de Redução dos Problemas Ligados ao álcool.

> Implementação do Plano Regional de Combate ao Tabagismo.

> Criação de equipas de intervenção em Comportamentos Aditivos em todas as Unidades de Ilha.

> Reforço a Inclusão dos temas obrigatórios de promoção de Estilos de Vida Saudáveis e Prevenção de Comportamentos Aditivos e Dependências no Manual de Saúde Escolar.

> Reduzir para metade, a nível global, o número de mortos e feridos devido a acidentes rodoviários.

> Implementação do Plano de Ação para Redução dos Problemas Ligados ao Álcool e Fórum Regional Álcool e Saúde.

 

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