A Estigmatização das pessoas com Transtornos Adictivos nos Media

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17 Jul / A Estigmatização das pessoas com Transtornos Adictivos nos Media

Estigma em pessoas com Perturbações pela utilização de substâncias ou dependência a abuso de substâncias nos Órgaõs de Comunicação Social

 

Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2018 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), cerca de 275 milhões de pessoas em todo o mundo, 5,6% da população mundial entre 15 e 64 anos, usaram drogas pelo menos uma vez em 2016. 31 milhões de pessoas que usam drogas sofrem de transtornos / perturbações pela utilização de drogas, o que significa que o uso de drogas é de tal forma prejudicial que as leva a precisarem de tratamento.

Apesar da extensão deste problema de saúde pública, as pessoas que enfrentam distúrbios adictivos[1] devem enfrentar um julgamento moral altamente estigmatizante da sociedade como um todo, particularmente no que diz respeito às pessoas que usam drogas ilícitas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a dependência de drogas ilícitas é a condição mais estigmatizante[2]; pessoas com problemática de álcool e outras drogas vivenciam diariamente atitudes estigmatizantes ou discriminatórias. Essas experiências podem ser altamente angustiantes e resultar em sentimentos de vergonha, culpa, raiva, rejeição, inutilidade ou desesperança que pode, por sua vez, desencadear o uso adicional de álcool ou outras drogas e outras formas de comportamentos de risco.

 

Estigma nos Media

Os Media (OCS) têm uma forte influência na percepção pública sobre drogas. Infelizmente, as histórias sobre drogas em jornais e revistas, filmes, dramas de televisão e talk shows frequentemente retractam “drogas” como instantaneamente viciantes, impossíveis de resistir, geram violência, depravação e ruína económica ou social. Mesmo os Media mais bem intencionados que ostensivamente querem ajudar os “toxicodependentes” frequentemente perpetuam crenças comuns como a necessidade de atingir o “fundo do poço” antes de aceitar o tratamento, ou a necessidade de “amor próprio” em intervenções de confronto.

Os Media são um reflexo de uma sociedade que estigmatiza profundamente as pessoas com transtornos por utilização de substâncias. Muitos deles tendem a abordar informações relacionadas com as dependências a partir de uma abordagem negativa, condenatória e moralizadora. Essa situação nada mais faz do que alimentar os preconceitos em torno da pessoa com usos problemáticos de álcool e outras drogas, sendo considerada um criminoso no imaginário social e, consequentemente, tratada com desprezo.

Duas narrativas de drogas e pessoas que as usam têm sido dominantes nos Media: uma liga drogas e crime, com várias perspectivas de violência, desordem pública, pobreza e tráfico, mas deixando de lado quaisquer aspectos sociais ou psicológicos; o outro retracta como inevitáveis ​​as consequências devastadoras do uso de drogas num indivíduo e no seu meio envolvente mais próximo.

 

Estigma e Linguagem

A linguagem usada quando se fala sobre ou se refere a pessoas que usam drogas tem um tremendo impacto sobre como elas se vêem e como elas são vistas pelos outros. Palavras como “viciado em heroína” ou “ex-viciado”, “alcoólico”, “recaída” ou “tratamento assistido por medicação” estão dotadas de uma carga negativa que contribui para perpetuar um muro que impede os interessados em procurar ajuda ou retomar sua vida com um certo grau de “normalidade”. Farmacoterapia, Recuperação de longo prazo e Perturbação por Utilização de Substância com carga positiva devem ser usadas em alternativa[3].

Nesse sentido, a opinião pública e as representações mediáticas reforçam-se mutuamente, contribuindo e perpetuando o estigma associado às drogas e ao uso de drogas. Nenhuma condição é mais estigmatizada que o “vício”.

A percepção do público é que o uso de drogas, incluindo o uso problemático de drogas, é uma escolha e que as pessoas escolhem não controlá-lo. Desta forma, o público em geral não permite a presença de qualquer factor atenuante.

Nove conselhos que ajudarão a eliminar o estigma nos Media

 

  1. Diferenciar entre as diferentes classes de drogas, uso, abuso e dependência

Ao divulgar informação sobre drogas, é importante que o jornalista diferencie os tipos de substâncias (opiáceos, anfetaminas, cocaína, canabinóides, etc.) e os seus efeitos. É também essencial que se diferencie entre o “uso”, “abuso” e “dependência”, uma vez que são três situações completamente distintas e que o público tende a confundir.

O uso de substâncias (incluindo também o tabaco, álcool ou medicamentos prescritos como ansiolíticos ou antidepressivos) é quando o seu consumo não causa distúrbios no comportamento ou saúde.

O abuso põe em risco a saúde da pessoa (física e mental) e daqueles que lhe são próximos.

A dependência faz perder a liberdade de escolha de opções. É considerada uma doença, segundo classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS). O indivíduo, neste nível, converte o consumo de substâncias numa parte central da vida e direcciona todas as suas acções para satisfazer essa necessidade. A característica essencial da Dependência de Substâncias é um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos (ocorrendo num mesmo período de 12 meses) indicativos de que o individuo continua a utilizar a substância apesar dos problemas significativos relacionados com esta.

 

  1. Evitar estigmatizar conceitos

Quando falamos do “problema da droga” nos meios de comunicação social, este é normalmente associado com a violência, crime, tráfico de drogas, pobreza e falta de educação. Na televisão, isto é reforçado com imagens de suporte associadas à marginalidade. À sociedade deve mostrar-se que o uso problemático de substâncias psicoactivas ou a dependência de drogas não estão necessariamente interligados com criminalidade.

 

  1. Concentrar-se na dependência de drogas em prismas diferentes e em toda a sua complexidade

A maioria da informação que é divulgada foca-se no delito e, consequentemente, nas suas repercussões judiciais; seguido pelas consequências do consumo de drogas. Este enfoque redutor apenas descontextualiza o problema global e intensifica a crença de que as drogas estão associadas aos grupos socioeconómicos mais baixos. É importante que os meios de comunicação social também enfatizem a prevenção, saúde, formas de tratamento para superar a dependência e programas de reintegração social (soluções).

 

  1. Evitar o tom alarmista

Classificações como “vício”, “negócio”, “fenómeno”, “alerta”, “delinquente”, “agarrado” (viciado), “mal” incitam a que a sociedade veja as drogas com receio e como uma ameaça latente. Em particular, pais que se preocupam que os seus filhos possam ser “induzidos” a consumi-las. O medo cria rejeição social junto das pessoas dependentes e reabilitadas, já que aos olhos da maioria, eles são “culpados” da sua própria sorte e são vistos como uma má influência.

 

  1. Informar de forma objectiva, descartando julgamentos moralistas

A sociedade já atribui uma conotação negativa à dependência de drogas, como “as drogas matam”. O trabalho dos media não é reforçar essa imagem, mas informar objectivamente, contextualizado e documentando esta realidade sem cair em juízos moralistas ou de reprovação (preconceito).

 

  1. Enfatizar as circunstâncias que favorecem o consumo

Embora os meios de comunicação social tenham um papel informativo, o seu trabalho também contribui para educar o público. É por esta razão que é necessário que o conteúdo informativo também mostre em que circunstâncias é que existe uma maior probabilidade de iniciar o consumo de drogas.

– Factores sociais: pressão de pares, fácil acesso, situação de rua.

– Factores familiares: ambientes permissivos ou demasiado estritos, pais toxicodependentes, famílias disfuncionais, abuso infantil e negligência.

– Factores individuais: curiosidade, baixa auto-estima, escape de problemas, frustração e solidão.

 

  1. Humanizar o conteúdo

Esta recomendação baseia-se no Conselho 3. A divulgação do conteúdo jornalístico do ponto de vista humano e com histórias pessoais (testemunhos) ajudará a que o público se inteire melhor da realidade. Esta perspectiva pode melhor transmitir os receios relativos a pessoas com transtornos adictivos, tais como receio de perder o emprego, rejeição familiar ou social, assim como com receio de estigma e problemas de auto-estima. Procura-se desta forma consciencializar – sem que se vitimize o/a protagonista – sobre uma realidade que é frequentemente subestimada.

 

  1. Pôr de lado o sensacionalismo

O imediatismo da informação geralmente implica que não se aprofunde a complexidade da situação nem o seu contexto, priorizando a informação mais crua, como o valor da droga, ou os aspectos dramáticos como “foi encontrada morta na banheira de um hotel de luxo” ou “com uma seringa no braço”. Os media devem ser responsáveis e cuidadosos para não cair no sensacionalismo ou especulação de uma história, já que acabam por incentivar os estereótipos.

 

  1. Jornalismo Especializado

Assim como as notícias internacionais, a política, a economia e o entretenimento, a cobertura de notícias relacionadas com a dependência também precisam de jornalistas especializados. Os jornalistas, no mínimo, devem ter uma compreensão dos diversos problemas causados pela utilização de substâncias ou perturbações pela sua utilização, incluindo os diferentes tipos de drogas, suas utilizações, efeitos e consequências biopsicossociais, para além de medidas preventivas eficazes.

Com a especialização, poderá combater-se a trivialidade dos conteúdos informativos relacionados com a droga / dependência. Os media têm um papel significativo no combate ao estigma e discriminação relacionado com drogas , contribuindo de forma mais eficaz para o conhecimento da necessidade de novas abordagens à “guerra às drogas” junto da opinião pública e melhorar a qualidade dos debates políticos.

 

O público deve entender que falar sobre drogas ou dependências não implica discriminar pessoas com perturbações devido ao uso de substâncias, mas sim ajudá-las a superar essa situação.

E, àqueles que tenham sido reabilitados e queiram se reintegrar na sociedade, não condicionar-lhes o seu futuro por terem tido uma dependência.

 

[1] Embora o estigma possa afectar todas as perturbações que causam dependência, é muito mais visível no caso de pessoas que vivenciam o uso problemático de álcool ou outras drogas (transtorno pela utilização de substâncias), razão pela qual este documento se concentra principalmente nessa população.

[2] Estudo da OMS em 14 países, analisando 18 condições potencialmente estigmatizantes – Fonte: Estigma, desigualdade social e uso de álcool e drogas (2008) – Robin Room et al. Acesso on-line, 16 de junho de 2018

[3] Artigo científico Substance use, recovery and linguistics, The Impact of word choice on explicit and implicit bias, Robert D. Ashford, Austin M. Brown, Brenda Curtis, Journal Drug and Alcohol Dependence. Acesso online 11 Julho 2018.