A Estigmatização de pessoas com perturbações relacionadas com o uso de substâncias

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06 Ago / A Estigmatização de pessoas com perturbações relacionadas com o uso de substâncias

De acordo com o Relatório Mundial Sobre Drogas de 2018 (1) do Gabinete da ONU para a Droga e a Criminalidade (UNODC), cerca de 275 milhões de pessoas em todo o mundo, aproximadamente 5,6% da população mundial entre os 15 e 64 anos, consumiu drogas pelo menos uma vez durante o ano de 2016. Cerca de 31 milhões de pessoas que consomem drogas sofrem de perturbações relacionadas com o consumo, o que significa que o seu consumo é prejudicial ao ponto de necessitarem tratamento.

 

Apesar da extensão deste problema de saúde pública, as pessoas que enfrentam perturbações relacionadas com a dependência têm de enfrentar um juízo moral (2) altamente estigmatizante da sociedade em geral, particularmente no que se refere a pessoas que consomem drogas ilícitas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a dependência de drogas ilícitas é a condição mais estigmatizante (3); as pessoas com um consumo problemático de álcool e outras drogas sofrem atitudes estigmatizantes e discriminatórias diariamente. Estas experiências podem ser altamente angustiantes e podem levar as pessoas a sentir vergonha, culpa, raiva, rejeição e um sentimento de inutilidade ou de desesperança que, por sua vez, pode desencadear um consumo ainda maior de álcool ou outras drogas, e outras formas de comportamentos de risco.

 

Pessoas com perturbações relacionadas com o uso de substâncias podem ser estigmatizadas e discriminadas em diversas situações e lugares, como por exemplo, pelas autoridades policiais, nos meios de comunicação ou no local de trabalho. No entanto, o estigma que emana dos profissionais e serviços de saúde é, provavelmente, o mais difícil, pois vem daqueles cuja própria missão é ajudá-los. Eis alguns exemplos de estigma associado aos serviços de saúde ou ao tratamento da toxicodependência:

 

As pessoas deixam de procurar tratamento

A maioria das pessoas que lutam contra uma perturbação de dependência deixa de procurar tratamento, em parte devido ao seu receio de que irão ser rotuladas como “viciadas” ou “bêbedas”. Frequentemente, uma crise precipita o tratamento quando a dependência já está bastante avançada (4). Se pudéssemos remover o estigma, a culpa e a vergonha da equação, seria mais fácil para as pessoas fazerem uma avaliação realista do seu problema e discuti-lo abertamente com o seu médico.

 

Muitos profissionais de saúde não são formados no tratamento da dependência

As pessoas afectadas pela dependência nem sempre são devidamente tratadas pelos profissionais de saúde; muitos médicos não reconhecem a dependência como uma condição tratável, e tendem a encorajar os pacientes a procurar ajuda fora da comunidade médica e em programas que não se assentam em práticas científicas. A comunidade médica deve reconhecer o comportamento aditivo como parte da sua alçada e utilizar práticas e abordagens cientificamente validadas.

 

Os pacientes são, por vezes, ostracizados

Os pacientes tratados a nível das perturbações relacionadas com o abuso de substâncias apresentam elevados níveis de estigma, quer real ou presumido, e de auto-estigma (5). Paralelamente, os profissionais de saúde tendem, por vezes, a ver o seu trabalho com pessoas com perturbações relacionadas com o abuso de substâncias como tendo um estatuto inferior ao das outras categorias de pacientes (6). Por fim, é rotina nas práticas de saúde mental que as pessoas com problemas de abuso de substâncias sejam dispensadas do tratamento quando o abuso de substâncias é revelado. É-lhes dito que o seu problema relacionado com o consumo de álcool ou droga torna-os indisponíveis para qualquer tratamento psicoterapêutico eficaz, e que precisam de “ficar limpos” antes de poderem retomar o seu programa de tratamento.

 

Cuidados abaixo dos padrões de qualidade

Uma meta-análise de 28 estudos (7) avaliou as atitudes dos profissionais de saúde perante pacientes com perturbações relacionadas com o abuso de substâncias, examinando o impacto destas atitudes na prestação dos cuidados de saúde. De acordo com a análise, as atitudes negativas dos prestadores de cuidados de saúde perante estes pacientes são comuns e contribuem para uma qualidade dos cuidados abaixo do padrão. As principais lições são:

– Os profissionais de saúde geralmente têm uma atitude negativa perante os pacientes com uma perturbação relacionada com o abuso de substâncias;

– Os pacientes são vistos como manipuladores, potencialmente violentos e que carecem de motivação, factores que representam barreiras à prestação de cuidados de saúde;

– Os profissionais não têm a educação, formação ou as estruturas adequadas para trabalhar com este tipo de pacientes;

– As atitudes negativas dos profissionais de saúde contribuem para reduzir a sentimento de emancipação dos pacientes e, por conseguinte, as hipóteses de sucesso do tratamento;

– Os profissionais de saúde estão menos envolvidos na prestação de cuidados de saúde e mais inclinados a adoptar uma abordagem com base nas tarefas, o que resulta numa menor empatia e compromisso pessoal da sua parte.

Recomendações para os Prestadores de Cuidados de Saúde

Os direitos humanos pertencem a todos, e o respeito pelos direitos humanos é essencial para as pessoas se recuperarem do abuso de álcool e outras drogas. Estes direitos incluem, entre outros:  o direito ao respeito e dignidade para cada indivíduo, a proibição de tratamentos desumanos ou degradantes, e o acesso equitativo a cuidados de saúde de qualidade

 

Médicos de Clínica Geral

O tratamento da dependência deve ser supervisionado, pelo menos em parte, por médicos de clínica geral. Todavia, são muitas vezes relutantes em tratar estes pacientes, em primeiro lugar porque a maioria destes profissionais não considera a dependência como uma patologia crónica e, por outro lado, porque consideram que são pacientes complicados ou problemáticos, enquanto que na realidade apenas 10% a 20% deles o são.

Esta situação resulta numa diminuição das possibilidades de tratamento da dependência por médicos de clínica geral – ainda que sejam uma porta de entrada privilegiada para os cuidados de saúde – e da acessibilidade desigual, dependendo da região. No caso da dependência de opióides, por exemplo, muitos pacientes reclamam que não encontram um médico de clínica geral que se comprometa a prescrever o tratamento de substituição.

 

Propostas para melhorar o tratamento da dependência

– Melhorar e adaptar a formação de médicos de clínica geral na medicina da dependência e promover uma formação continuada;

– Reforçar o papel dos médicos de clínica geral como um primeiro recurso no tratamento de perturbações relacionadas com a dependência;

– Promover o tratamento por médicos de clínica geral como a principal porta de entrada para o sistema de saúde;

– Construir um caminho coordenado e articulado dos cuidados de saúde com os vários sistemas de saúde e sociais;

– Desenvolver métodos específicos de cuidados adaptados às necessidades das mulheres.

 

Serviços Prioritários

Os serviços de saúde prioritários são, frequentemente, o primeiro ponto de contacto para as pessoas que sofrem do consumo problemático de álcool e outras drogas. A qualidade das interacções entre os funcionários e um indivíduo é fundamental para apoiá-los na sua recuperação e para permitir o acesso a uma ampla gama de serviços ao longo da continuidade dos cuidados. Os serviços de cuidados de saúde adequados devem basear-se em:

– Qualidade da prestação do serviço (incluindo a ausência de estigma e discriminação);

– Qualidade do ambiente do serviço;

– Qualidade do processo de consulta;

– Capacidade de uma pessoa usar um serviço para relatar a sua experiência a uma agência dedicada a apoiar a melhoria contínua do serviço;

– Implementação de programas de formação para promover uma melhor compreensão do estigma e das suas consequências, mudar comportamentos e atitudes individuais, e influenciar positivamente a cultura organizacional.

 

Serviços Especializados

Recomenda-se que os serviços prioritários especializados no tratamento de pessoas com perturbações relacionadas com a dependência trabalhem no sentido de reduzir o estigma e a discriminação na comunidade local. Entre outras coisas, estes serviços devem ser capazes de:

– Fornecer informações adequadas, aconselhamento e apoio a todos os interessados, às suas famílias e entes queridos;

– Assegurar que as pessoas directa ou indirectamente afectadas pelo abuso de substâncias compreendam plenamente a natureza, o propósito e o funcionamento dos recursos locais;

– Envolver devidamente os indivíduos, as suas famílias e entes queridos, em todas as fases do processo de tratamento, e apoiá-los na navegação do sistema de tratamento da dependência;

– Construir ou melhorar a capacidade do paciente em compreender e gerir questões relacionadas com o seu bem-estar e saúde;

– Melhorar a resiliência, a confiança e a auto-estima dos pacientes, das suas famílias e entes queridos;

– Apoiar, informar, transmitir esperança, optimismo e educação durante a gestão de questões sobre o uso de substâncias e a redução de riscos com os pacientes, os seus entes queridos e a comunidade em geral.

 

Os serviços de tratamento de perturbações relacionadas com o abuso de substâncias devem ser hospitaleiros e não estigmatizantes. Os valores da prática no sector devem incluir a não discriminação, respeito e dignidade, compaixão, não julgamento, emancipação, práticas centradas na pessoa, práticas com base na força, cuidados holísticos, acessibilidade, flexibilidade e receptividade. Estas práticas devem ser seleccionadas a partir de um conjunto de abordagens com base científica.

 

Em conclusão, deve-se salientar que as pessoas que não sofrem o estigma ou a discriminação nas suas relações com os cuidados de saúde e serviços sociais sentem-se mais bem compreendidas e tratadas como um indivíduo “normal”. É por este motivo que promover um espírito de abertura, compreensão e tolerância contribui para uma continuidade dos cuidados mais eficaz.

Referências

  1. Relatório Mundial sobre Drogas de 2018 (UNODC – Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime), excerto do Sumário Executivo
  2. Ainda que o estigma possa afectar todas as perturbações relacionadas com a dependência, este é generalizado no caso de pessoas que sofrem de um consumo problemático de álcool ou outra droga (perturbação pelo uso de substâncias), razão pela qual este documento se concentra, essencialmente, nesta população.
  3. De acordo com um estudo realizado pela OMS em 14 países, analisando 18 condições potencialmente estigmatizantes – Fonte: Estigma, desigualdade social e consumo de álcool e droga (2008) – Robin Room et al. Acesso on-line, 16 de junho de 2018
  4. Estigma e Tratamento para Perturbações do Alcoolismo nos Estados Unidos (2010) – K. M. Keyes, M. L. Hatzenbuehler, K. A. McLaughlin, B. Link, autor correspondente M. Olfson, B. F. Grant e D. Hasin – Acesso on-line, 16 de junho de 2018
  5. Uma investigação do estigma em indivíduos a receber tratamento para o abuso de substâncias (2007) Luoma JB, Twohig MP, Waltz T, Hayes SC, Roget N, Padilla M, Fisher G. Acesso on-line, 16 de junho de 201
  6. De acordo com um estudo com uma amostra de 866 profissionais (médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais) em 8 países europeus – fonte: Considerações dos funcionários sobre trabalhar com consumidores de substâncias: um estudo multicêntrico europeu (2011) Gilchrist G1, Moskalewicz J, Slezakova S, Okruhlica L, Torrens M, Vajd R, Baldacchino A. Acesso on-line, 16 de junho de 2018
  7. Estigma entre profissionais de saúde perante pacientes com perturbações relacionadas com o uso de substâncias, e as suas consequências na prestação dos cuidados de saúde: revisão sistemática (2013) – Leonieke C. van Boekel Evelien P.M.Brouwers Jaap van Weeghel Henk F.L. Garretsen. Acesso on-line, 16 de junho de 2018