Evidências Científicas no Tratamento e Reinserção das Dependências | Drogas e Álcool

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14 Mar / Evidências Científicas no Tratamento e Reinserção das Dependências

Trajetórias sociais de toxicodependentes após processo terapêutico

 

O presente artigo faz parte de um trabalho de evidências científicas do tratamento de dependências de drogas e álcool e reinserção social mais amplo. Intitula-se Trajetórias da dependência à integração – estudo das trajetórias sociais de toxicodependentes após processo terapêutico (PTDC/CS-SOC/099684/2008). Foi desenvolvido tendo como base empírica os utentes da Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas, da Associação Dianova Portugal. Trata-se de um estudo longitudinal, de follow-up, compreendendo o período de 1999 a 2009.

 

 

Metodologia

Em termos metodológicos o estudo conciliou abordagens quantitativas e qualitativas em três fases distintas, mas interligadas e complementares.

A primeira assentou na análise da base de dados dos utentes da comunidade terapêutica Quintadas Lapas com alta clínica entre 1999 e 2009. Nesta fase procedeu-se à caracterização socioeconómica, demográfica e relativa aos consumos.

A segunda fase assentou na aplicação de um questionário por telefone. Através deste primeiro contacto pretendeu-se, numa lógica de follow-up, identificar mudanças nas trajetórias de vida dos indivíduos. Identificar a paragem definitiva ou a retoma dos consumos de substâncias psicoativas. Conhecer os seus percursos. Identificar os obstáculos e os facilitadores da reinserção familiar, profissional e social.

A terceira fase assentou em entrevistas em profundidade a um grupo identificado como relevante para a problemática em estudo pelas características da sua trajetória de reintegração.

 

Principais Resultados

 

Apresentamos, de seguida, uma breve síntese dos principais resultados, organizada em função de três eixos de análise principais.

> Fatores de reforço e de vulnerabilidade associados a trajetórias de reintegração.

> Mudanças de estilo de vida após processo terapêutico.

> Principais agentes de suporte ao processo de reintegração.

 

Fatores de reforço associados a trajetórias de reintegração bem-sucedidas e fatores de vulnerabilidade associados a trajetórias de reintegração não conseguidas.

 

O Índice de Reintegração Social de Toxicodependentes após processo terapêutico (IRST) traduz o somatório de sete variáveis abrangendo quatro dimensões.

A dimensão laboral integrou duas variáveis que permitem fazer alguma distinção no tipo de integração laboral. Não se encontrar desempregado ou internado em tratamento; ser trabalhador por conta própria ou ter contrato sem termo.

A dimensão familiar considerou especialmente a autonomia face à família de origem, já que no momento prévio ao internamento grande parte destes utentes vivam com os pais.

A dimensão abstinência integrou dois fatores, não estar a consumir drogas atualmente e não ter tido recaídas desde que terminou o tratamento.

Na dimensão social consideraram-se dois indicadores de capital social, ter criado novas amizades depois do tratamento completo e pertencer a algum tipo de associação ou grupo.

Cada um destes critérios corresponde a um ponto. Sendo o índice de reinserção dos toxicodependentes o somatório desses pontos com variação entre 0, a que corresponde um nível de reintegração nulo. E, por outro lado, 7, a que corresponde uma reintegração máxima (média = 3,76; desvio padrão = 1,42).

A partir daqui, procuramos os fatores relevantes na relação com o índice de reintegração social com base noutros estudos sobre o tema. Tais fatores foram então cruzados com o índice de reinserção social de toxicodependentes (Quadro 1).

 

Quadro 1 – Médias e coeficientes de correlação do IRST nas variáveis independentes

 

Comparando homens com mulheres são estas que apresentam valores no índice mais elevados, mas com uma ténue diferença 4 décimas.

Em termos de idade a relação é positiva no sentido em que mais idade corresponde a valores mais elevados no índice, embora a correlação seja muito baixa.

Em termos de escolaridade não existe uma relação linear com os valores no indicador de reintegração. Observa-se, ao contrário do esperado, valores mais elevados nos sujeitos com o 1º ciclo e valores mais baixos nos sujeitos com formação universitária. Embora se deva ter em conta que as frequências são muito baixas em algumas das categorias.

Em termos geográficos, sujeitos que mudaram de residência apresentam valores sensivelmente mais elevados.

 

O processo Terapêutico vs o IRST

 

Nos três fatores referentes ao processo terapêutico a relação é sempre positiva.

> quantos mais anos passaram desde a alta clínica.

> quanto mais longa a duração do tratamento.

> e quanto melhor a avaliação do tratamento,

mais elevados os valores do IRST. 

A correlação com a duração do tratamento a mais baixa.

Assim, parece ser mais relevante os anos que passaram desde a conclusão do tratamento e a avaliação subjetiva do tratamento. Embora neste caso não deva existir uma relação de simples causa efeito mas mais um efeito circular. Ou seja, se os sujeitos se encontram melhor reintegrados, a avaliação do tratamento deverá também ser melhor.

Em termos das principais substâncias consumidas os ex-consumidores de álcool apresentam valores mais elevados. Por outro lado, os ex-consumidores de cannabinóides apresentam valores mais reduzidos. O facto de se tratar de uma substância lícita e, por isso, com uma menor carga de censura social face aos (ex)consumidores pode ajudar a entender.

Da mesma forma, no caso dos consumidores de cannabinóides pode dever-se a um acumulado de problemas que intercetam com o consumo desta substância. Embora se deva ter em conta que se trata de uma categoria muito pouco frequentada e, por isso, os valores desta média devam ser interpretados com precaução. Ao contrário do esperado, mais anos de consumo da substância principal mais elevados os valores no índice.

Por fim, no que respeita o fator jurídico, a diferença entre ter ou não antecedentes judiciais apenas altera uma décima nos valores médios do índice.

 

Factores internos e externos que incidem sobre uma reinserção bem ou mal sucedida

 

Em geral não se observam diferenças muito díspares, no entanto há que ter presente que a base de trabalho empírica tem uma dimensão reduzida. É, pois, necessário replicar o indicador noutros estudos para validar a sua robustez.

Importa ainda considerar que uma reintegração bem-sucedida pode não depender tanto de características à priori dos sujeitos (sexo, idade, escolaridade, etc.). Mas mais de características pós-tratamento (pouco exploradas neste modelo).

Finalmente, o sucesso da reintegração pode não ser cabalmente aferido através de metodologias quantitativas ou pela classificação dos sujeitos em grandes categorias macrossociológicas. Mas antes analisando a experiência de reintegração de cada um dos sujeitos numa perspetiva microssociológica.

 

Mudanças verificadas no estilo de vida após o processo terapêutico. Relação com as substâncias psicoativas, projetos de vida (individuais, socioprofissionais), redes de sociabilidade, atividades de lazer.

 

Em traços gerais identificamos um número pouco expressivo de recaídas, bem como um aumento do investimento dos indivíduos em processos de escolarização e formação de caráter formal. Contudo, mantêm-se níveis de escolaridade baixos, o que tende a representar maior vulnerabilidade a situações de desemprego.

Quanto à situação perante o emprego, o cenário é mais otimista considerando uma perspetiva longitudinal. Contudo, é necessário ter em conta que mais de um terço dos utentes se encontrava empregado quando deu entrada no tratamento. Contrariando algumas representações que associam dependentes de drogas a pessoas incapazes de fazer face às exigências de um emprego (Negura & Maranda, 2008). A maioria era e continuava a ser trabalhador por conta de outrem.

A estabilidade laboral, operacionalizada através do tipo de vínculo contratual, parece decrescer, uma vez que entre os dois momentos se registou um decréscimo das situações de contratos sem termo. Esta alteração pode estar associada a problemas com os consumos de drogas. Mas não podemos deixar de ter presente que, mesmo para a população maioritária em Portugal, tem-se vindo a observar um aumento da proporção dos trabalhadores por conta de outrem com contrato a prazo (Barreto, 2000:135).

No caso das profissões, observou-se uma tendência crescente dos especialistas das profissões intelectuais e científicas, do pessoal administrativo e dos operadores de máquinas. Ao mesmo tempo, observa-se um decréscimo considerável de operários. No entanto, os dados não são suficientes para que se possa afirmar estamos perante processos de mobilidade social ascendente.

Por fim, no que respeita às estratégias mobilizadas na obtenção do emprego, percebemos que não só os empregos se alteram, como também as estratégias mobilizadas na obtenção dos mesmos.

 

Principais agentes de suporte ao processo de reintegração – família, amigos, equipa terapêutica, outros agentes ou estruturas de apoio social.

 

Através de uma perspetiva biográfica foi possível estabelecer a existência quer de fatores de risco, quer de fatores protetores de reintegração social.

Segundo os entrevistados, uma reinserção social bem sucedida é possível com o suporte da família, tanto de origem (especialmente pais e irmãos), como formadas após o tratamento (matrimónio ou união de facto).

De facto, esta é a fonte de ajuda mais frequentemente nomeada. Quer em termos financeiros, quer em termos morais/psicológicos. Ou ainda como fonte de confiança ou na dissuasão de consumos de substâncias psicoativas.

Contudo, a mesma família pode ser apontada como um agente dificultador de uma plena reinserção, sobretudo em situações em que o estigma de ‘toxicodependente’ continua presente. Sendo que, em situações de conflito, é rápida e repetidamente ativado. Não foi encontrada nenhuma situação de completa rutura com a família de origem.

Não obstante, existem algumas situações em que esta se encontra geograficamente distante, por opções por um novo projeto de vida numa região distante, sem suporte familiar.

Destacamos ainda referências ao suporte por parte da organização empregadora, à própria capacidade de autoajuda, ao suporte de amigos e de animais de estimação.

 

Obstáculos à Reinserção

 

Quando se questiona acerca do maior obstáculo para uma plena reinserção, o mais frequentemente apontado é o retorno ao antigo local de residência. Por um lado, o problema de voltar a entrar em contato com os antigos círculos de consumos, o que pode influenciar recaídas. Por outro lado, o problema de viver em meios pequenos, onde existe um elevado controlo social e onde o estigma do toxicodependente está muito presente. Locais com características mais próximas do ideal de comunidade de Tönnies (2004). 

Outro dos aspetos referidos por alguns entrevistados prende-se com o facto de saírem do tratamento sem se sentirem ainda preparados para tal. Ou seja, sentiram dificuldades em retomar as rotinas do quotidiano.

Uma outra ordem de dificuldades reside em dificuldades económicas, iniciais durante o período subsequente ao tratamento, mas também associadas a situações de desemprego. No mesmo sentido, destacamos as referências à conjuntura económica de recessão. Sobretudo, por sujeitos que se encontravam em situação de desemprego no momento da entrevista. Mas também por sujeitos que, embora empregados, manifestam receios de perder o emprego ficando numa situação de maior vulnerabilidade.

Em alguns casos, a ausência prolongada de emprego torna-se um fator de desmotivação para abandonar os atuais consumos e tentar uma procura ativa de emprego. A incerteza e o risco associados às perspetivas de futuro tendem a configurar sentimentos de “desespero existencial” assumidos como inevitabilidade (Costa, 2012).

 

Conclusão

 

Concluindo, importa destacar que as áreas estratégicas de intervenção apontadas por este estudo como áreas a desenvolver remetem para a promoção de medidas de apoio à inserção social. Especialmente, de sujeitos com comportamentos aditivos e dependentes mais integradas.

Uma maior integração quer institucional, quer ao nível das dimensões de vida do indivíduo: familiar, residencial, laboral, social. Remetem ainda para um reforço da atenção às alterações rápidas que se verificam no domínio das substâncias psicoativas. O aparecimento de novas substâncias lícitas, ilícitas e não controladas, sintéticas e naturais. E a emergência de novos padrões de consumo e estilos de vida associados.

Neste sentido, o “aparecimento de ‘novos’ problemas que desafiam os atuais modelos políticos e práticos” (EMCDDA, 2013: 11). Daí a necessidade de se repensarem estes modelos exigindo uma atuação essencialmente voltada para a prevenção.

 

Relatórios Intercalares e Final do Estudo de Follow up

 

> Ler+ Relatório Estudo Follow up I

> Ler+ Relatório Estudo Follow up II

> Ler+ Relatório Estudo Follow up III

 

Referências bibliográficas

 

Barreto, A. (Ed.) (2000). Indicadores sociais em Portugal e na União Europeia (a situação social em Portugal 1960-1999), vol.II, Lisboa: ICS.

Costa, A. F. (2012). Desigualdades Sociais Contemporâneas, Lisboa: Mundos Sociais.

Negura, L. & Maranda, M. F. (2008). “Hiring substance abusers: attitudes of managers and organizational needs”. Drugs: Education, Prevention and Policy, 15(2), 129-44.

EMCDDA – Europena Monitorin Centre for Drugs and Drug Addiction (2013). Relatório Europeu sobre Drogas 2013: Tendências e Evoluções, Luxemburgo: Serviço de Publicações da União Europeia.

Tönnies, F. (2004), “Comunidade e Sociedade”. In M. B. Cruz (Ed.), Teorias Sociológicas – os fundadores e os clássicos (Antologia de Textos) vol.I, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Notas Biográficas

 

Susana Henriques

É Doutora em Sociologia – especialidade em Educação, Comunicação e Cultura (ISCTE-IUL). Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE-IUL). Licenciada em Sociologia (ISCTE-IUL).

Investigadora do CIES-IUL; LE@D, UAb.

Professora Auxiliar no Departamento de Educação e Ensino a Distância da Universidade Aberta. Assegura unidades curriculares: na Licenciatura em Educação. Na Pós-Graduação em Educação Social e em Estudos Juvenis (nas quais tem funções de coordenação). Nos mestrados de Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares, Supervisão Pedagógica e Gestão e Administração Educacional. No doutoramento em Educação. Coordena o Curso de Especialização em Prevenção de Dependências.

Áreas de interesse na investigação: Sociologia da educação e da comunicação – elearning, literacia mediática, liderança educacional. Metodologias de investigação. Prevenção e Educação para a Saúde.

 

Pedro Candeias

É doutorando. É licenciado e mestre em sociologia pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Pedro é investigador da Universidade de Lisboa, no Instituto de Ciências Sociais (ICS) e no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Unidade de Investigação em Ciências Sociais e Gestão (SOCIUS/CSG. Participou em projetos de investigação e publicações sobre reintegração social de ex-toxicodependentes, tolerância social, migrações e minorias étnicas.