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15 Set / Jovens, Saúde Mental e Comportamentos Aditivos

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Falar de saúde mental e comportamentos aditivos entre os jovens portugueses exige resistir a uma tentação: a de simplificar. É frequente ouvir que a adolescência atual atravessa uma deterioração generalizada da saúde mental, muitas vezes associada ao tempo de ecrã e às redes sociais. Os dados mais recentes disponíveis para Portugal convidam, contudo, a uma leitura mais cuidadosa menos centrada em generalizações e mais atenta às diferenças entre grupos e contextos.

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O que diz o estudo ECATD-CAD 2024 sobre os jovens portugueses?

O ECATD-CAD 2024 — Bem-estar, saúde psicológica e comportamentos aditivos, publicado pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) em 2026, é o primeiro relatório dedicado especificamente à análise da relação entre a prevalência de comportamentos aditivos e saúde psicológica. O estudo analisou alunos do ensino público português entre os 13 e os 18 anos.

Consultar o estudo completo — ECATD-CAD 2024, ICAD

A conclusão central é importante: a maioria dos alunos inquiridos apresenta bem-estar psicológico adequado e níveis normais de depressão, ansiedade e stress. Os dados não sustentam, por si só, uma ideia de deterioração generalizada da saúde mental dos jovens.

Isso não torna o retrato tranquilizador. Existe uma proporção significativa de adolescentes com dificuldades reais e é sobre estas situações de vulnerabilidade que a prevenção precisa de se concentrar.

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Quais os principais indicadores de saúde mental preocupantes?

Alguns números do estudo merecem atenção redobrada por parte de escolas, famílias e profissionais de saúde:

  • − 10% dos alunos apresentam níveis severos ou muito severos de depressão;
  • − 13% apresentam níveis severos ou muito severos de ansiedade;
  • − 7% apresentam níveis severos ou muito severos de stress;
  • − 60% referem que, nas duas semanas anteriores ao inquérito, foram poucos os dias em que acordaram a sentir-se repousados; 1 em cada 4 afirma que isso nunca aconteceu nesse período;
  • − 1 em cada 10 alunos declara não poder partilhar os seus problemas nem com a família nem com os amigos.

Um dado adicional do relatório merece também atenção: as raparigas apresentam indicadores de saúde psicológica menos favoráveis do que os rapazes, nomeadamente no que diz respeito a depressão, ansiedade, stress e bem-estar.

Estes resultados sugerem que as estratégias de prevenção devem ter em consideração as diferenças de género, evitando respostas indiferenciadas perante realidades que não são iguais.

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Existe relação entre saúde mental e comportamentos aditivos?

Sim , mas é uma relação complexa e que não deve ser confundida com uma relação causal única.

Os alunos que reportam comportamentos aditivos recentes apresentam, em média, pior bem-estar emocional e mais sintomas de depressão, ansiedade e stress. Ao mesmo tempo, os comportamentos aditivos são mais prevalentes entre os alunos que apresentam pior saúde psicológica.

O próprio ICAD sublinha que estes dados não permitem estabelecer causalidade. Diferentes fa  tores psicológicos, sociais, familiares e comportamentais podem interagir e contribuir para situações de maior vulnerabilidade.

Na prática, estes resultados reforçam a importância de respostas capazes de considerar simultaneamente as dimensões psicológica, social e comportamental.

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Nem todos os comportamentos aditivos estão relacionados da mesma forma

A discussão pública sobre jovens e saúde mental tende a concentrar-se no tempo de ecrã e nas redes sociais. Os dados do ECATD-CAD sugerem um quadro mais amplo.

  • → a associação com pior saúde psicológica é mais evidente no consumo de substâncias psicoativas, sobretudo tranquilizantes/sedativos e drogas ilícitas que não canábis.O consumo de tranquilizantes/sedativos, particularmente sem prescrição médica, apresenta a associação mais forte com sintomas de depressão, ansiedade e stress.
  • → nos comportamentos aditivos sem substância, os resultados são mais heterogéneos;
  • → o uso problemático das redes sociais está consistentemente associado a piores indicadores psicológicos;
  • → o jogo intensivo, definido no estudo como quatro ou mais horas por dia em dias de escola, associa-se a piores indicadores emocionais; esta relação não é estatisticamente significativa quando o jogo ocorre em dias sem atividades escolares.

A pergunta útil não é “qual é o culpado”, mas em que contextos e para que perfis de jovens determinado comportamento pode representar maior risco.

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Que fatores de contexto aumentam a vulnerabilidade?

Nenhum comportamento aditivo existe isolado da vida da pessoa.

O estudo identifica uma maior prevalência de comportamentos aditivos entre alunos com menor suporte emocional familiar e entre aqueles que estiveram recentemente envolvidos em situações de bullying ou cyberbullying, como vítimas ou como agressores.

Entre os inquiridos, 17% referem ter sofrido bullying e 7% dizem tê-lo praticado, sendo que ambos os grupos apresentam prevalências de comportamentos aditivos proporcionalmente superiores às dos restantes alunos.

Isto não significa que o bullying ou a falta de suporte familiar “causem” comportamentos aditivos.

Significa que qualquer estratégia de prevenção precisa de atuar sobre estes fatores de vulnerabilidade e de proteção, e não apenas sobre o comportamento final.

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O que diz o contexto europeu?

A realidade portuguesa enquadra-se num contexto europeu em que a relação entre saúde mental e comportamentos aditivos também tem vindo a merecer maior atenção.

Em Maio de 2026, a Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA) publicou um guia sobre perturbações concomitantes de saúde mental e consumo de substâncias, salientando a frequência destas situações e a necessidade de deteção precoce, avaliação adequada e respostas integradas.

EUDA — Dual disorders: health and social responses

Quando os problemas se cruzam, os serviços de apoio também não podem funcionar de forma isolada.

Esta perspetiva é coerente com os resultados encontrados em Portugal: quando diferentes dimensões do bem estar e dos comportamentos aditivos se cruzam, as respostas precisam também de ter em consideração essa complexidade.

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Como prevenir comportamentos aditivos na adolescência?

Prevenir não é apenas informar sobre riscos. É atuar sobre o contexto que torna um jovem mais ou menos vulnerável:

    1. Promover literacia emocional e competências de regulação emocional;
    2. Reforçar o suporte familiar e as relações protectoras;
    3. Criar ambientes escolares seguros e propícios ao diálogo;
    4. Prevenir o bullying e o cyberbullying de forma activa;
    5. Identificar precocemente sinais de risco, em vez de esperar pela crise;
    6. Garantir acesso a respostas adequadas de saúde mental e de intervenção nos comportamentos aditivos;
    7. Combater o estigma associado ao pedido de ajuda.

O próprio ECATD-CAD aponta para a importância de estratégias integradas de promoção da saúde mental juvenil, incluindo literacia emocional, desenvolvimento de competências de regulação emocional, reforço do suporte familiar, prevenção do bullying e promoção de ambientes escolares seguros e propícios ao diálogo.

Do ponto de vista da prevenção, este ponto é particularmente relevante: Criar condições para que pedir ajuda seja possível e não seja motivo de vergonha é também uma forma de prevenção.

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Compreender para prevenir melhor

Os dados não oferecem respostas simples. E talvez essa seja uma das suas conclusões mais importantes.

A relação entre saúde psicológica e comportamentos aditivos é complexa e envolve fatores individuais, familiares, sociais e comportamentais.

A maioria dos jovens inquiridos apresenta indicadores adequados de bem-estar e saúde psicológica. Ao mesmo tempo, existem proporções significativas de adolescentes com níveis preocupantes de depressão, ansiedade, stress ou dificuldades relacionadas com o suporte emocional.

Existe também uma relação relevante entre saúde psicológica e comportamentos aditivos — uma relação que não pode ser reduzida a uma simples relação de causa e efeito.

Prevenir implica, por isso, mais do que informar sobre riscos. Implica promover fatores de proteção, reduzir vulnerabilidades, identificar precocemente situações de risco e garantir que existe acesso a respostas adequadas.

Compreender melhor os dados é um primeiro passo.

Transformar esse conhecimento em prevenção é o passo seguinte.

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Fontes

  • ICAD — Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências. ECATD-CAD 2024 — Bem-estar, saúde psicológica e comportamentos aditivos. 2026. Consultar estudo completo
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  • EUDA — European Union Drugs Agency. Dual disorders: health and social responses. Consultar publicação da EUDA
By Marta Santos in Noticias