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13 Jul / O Poder das Palavras no Combate ao Estigma

Quando uma pessoa é descrita como “toxicodependente”, a probabilidade de ser vista como mais responsável pela sua condição e mais merecedora de uma resposta punitiva aumenta significativamente. A única diferença? A palavra utilizada.

Este é o resultado de um dos estudos mais citados nesta área (Kelly & Westerhoff (2010), publicado no Journal of Drug Issues) e resume, melhor do que qualquer argumento, porque é que a linguagem importa. Esta evidência foi posteriormente confirmada por outros estudos, que demonstram que a linguagem influencia a forma como profissionais, meios de comunicação e a sociedade percecionam as pessoas com perturbações do uso de substâncias (Ashford, Brown & Curtis, 2019; Atayde et al., 2021).

Quando falamos sobre pessoas que vivem com uma dependência, uma doença mental ou outras situações de vulnerabilidade, as palavras que escolhemos não servem apenas para descrever uma realidade. Também ajudam a construí-la.

Durante muito tempo, expressões como “toxicodependente”, “drogado”, “alcoólico” ou “sem-abrigo” tornaram-se tão comuns que deixaram de ser questionadas. Mas o impacto que estes rótulos têm — na opinião pública, nas decisões políticas, na qualidade dos cuidados e na forma como as próprias pessoas se veem — está amplamente documentado.

A boa notícia é que, se a linguagem pode contribuir para o estigma, também pode ajudar a desconstruí-lo. É precisamente por isso que a forma como comunicamos merece a nossa atenção.

 

A linguagem nunca é neutra

A forma como comunicamos influencia a opinião pública, as decisões políticas, a cobertura mediática e até a qualidade dos cuidados de saúde.

Quando reduzimos alguém à sua condição — “o toxicodependente”, “o alcoólico”, “o esquizofrénico” — deixamos de ver a pessoa na sua totalidade. A identidade fica limitada a uma única característica, apagando a história, as capacidades, os recursos e o potencial de mudança.

Pelo contrário, utilizar uma linguagem centrada na pessoa lembra-nos que estamos perante alguém que vive uma determinada condição, mas que não é definido por ela.

Não se trata de uma questão de “politicamente correto”. Trata-se de reconhecer a dignidade humana.

 

O estigma tem consequências concretas

O estigma não nasce apenas das atitudes. É também alimentado pela linguagem — e tem um impacto real na vida das pessoas.

A investigação demonstra que determinadas expressões aumentam a tendência para atribuir culpa, considerar as pessoas mais perigosas ou defender respostas mais punitivas em vez de soluções baseadas na saúde e na inclusão. Pequenas alterações na linguagem podem produzir diferenças significativas na forma como pensamos, decidimos e agimos. Estes efeitos não se limitam à perceção pública. A investigação mostra que a linguagem utilizada em contextos clínicos pode influenciar a tomada de decisão dos próprios profissionais de saúde e condicionar a qualidade dos cuidados prestados (Goddu et al., 2018; Park et al., 2021).

Estas consequências não são apenas simbólicas. Traduzem-se em desigualdades reais na vida das pessoas.

O estigma pode levar as pessoas a adiar ou evitar procurar ajuda por receio de serem julgadas. Pode dificultar o acesso ao emprego, à habitação ou aos cuidados de saúde. Pode aumentar o isolamento, a vergonha e o autoestigma.

Quando alguém acredita que será tratado apenas como “um problema”, torna-se mais difícil dar o primeiro passo para pedir apoio.

Por isso, combater o estigma não é apenas uma questão de sensibilidade. É também uma questão de saúde pública, direitos humanos e inclusão social.

 

As histórias são sempre mais complexas do que os rótulos

Nenhuma pessoa começa a sua história pelo consumo de substâncias.

Em muitas situações, os percursos de consumo desenvolvem-se em contextos marcados por experiências de trauma, violência, pobreza, doença, exclusão, perda ou outras formas de vulnerabilidade. Estes fatores não explicam todas as situações, mas lembram-nos que nenhuma história começa simplesmente com o consumo de substâncias.

Isto não significa retirar responsabilidade individual. Significa reconhecer que a realidade é complexa e que compreender o contexto permite responder de forma mais eficaz, mais justa e mais humana. Esta abordagem está também alinhada com as recomendações da Organização Mundial da Saúde, que identifica o estigma e a discriminação como barreiras importantes ao acesso aos cuidados de saúde (WHO, 2023).

Quando ignoramos esse contexto e utilizamos apenas rótulos, simplificamos vidas que nunca foram simples.

 

As palavras e as imagens constroem a mesma realidade

A comunicação responsável não depende apenas das palavras.

As imagens que escolhemos podem reforçar preconceitos ou ajudar a desconstruí-los. Fotografias que mostram apenas seringas, pessoas em sofrimento extremo ou cenários de degradação tendem a consolidar uma visão redutora sobre o consumo de substâncias.

Em alternativa, é possível representar pessoas reais, relações, comunidade, recuperação, apoio e dignidade — contribuindo para uma visão mais completa e mais próxima da realidade.

Linguagem e imagem trabalham juntas. E juntas podem perpetuar o estigma ou ajudar a combatê-lo.

 

Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença

Nem sempre é necessário alterar profundamente a forma como escrevemos ou falamos.

Por vezes basta substituir um rótulo por uma expressão centrada na pessoa:

  • → “Pessoa com uma dependência” em vez de “toxicodependente“;
  • → “Pessoa em situação de sem-abrigo” em vez de “sem-abrigo“;
  • → “Pessoa que retomou o consumo” ou “retoma do consumo” em vez de “recaída“;
  • → “Pessoa que vive com esquizofrenia” em vez de “esquizofrénico/a“.

Estas escolhas ajudam a reduzir o estigma sem diminuir o rigor da informação.

A utilização de linguagem centrada na pessoa é hoje recomendada por diversas organizações internacionais, incluindo o National Institute on Drug Abuse (NIDA) e o Canadian Centre on Substance Use and Addiction (CCSA), que disponibilizam orientações práticas para profissionais, comunicadores e instituições.

 

Mudar palavras, mudar atitudes

Mudar as palavras, por si só, não elimina o estigma.

Mas dificilmente conseguiremos eliminar o estigma se continuarmos a utilizar uma linguagem que reduz pessoas a rótulos.

Cada conversa, cada notícia, cada publicação nas redes sociais e cada documento institucional contribui para construir uma determinada visão da realidade.

Escolher palavras que respeitam a dignidade humana é um pequeno gesto que pode ter um impacto muito maior do que imaginamos.

Na Dianova Portugal acreditamos que promover uma linguagem mais humana, mais rigorosa e mais inclusiva faz parte da construção de comunidades mais informadas, mais justas e mais capazes de apoiar quem enfrenta desafios relacionados com as dependências e outras situações de vulnerabilidade.

Porque as palavras não mudam apenas discursos.

Podem mudar atitudes. E as atitudes podem mudar vidas.

Porque, no fim, cada palavra que escolhemos é também uma escolha sobre a sociedade que queremos construir.

 

Convidamo-lo(a) a consultar o guia “O Poder das Palavras” , onde encontrará recomendações práticas, exemplos e evidência científica sobre o impacto da linguagem nas dependências, na saúde e na inclusão social.

 

 

 

Referências
  • Ashford, R. D., Brown, A. M., & Curtis, B. (2019). Biased labels: An experimental study of language and stigma among individuals in recovery and health professionals. Substance Use & Misuse, 54(8), 1376–1384.
  • Atayde, A. M. P., et al. (2021). Changing the narrative: A call to end stigmatizing terminology related to substance use disorders. Addiction Research & Theory, 29(6), 441–447.
  • Goddu, A. P., et al. (2018). Do words matter? Stigmatizing language and the transmission of bias in the medical record. Journal of General Internal Medicine, 33(5), 685–691.
  • Kelly, J. F., & Westerhoff, C. M. (2010). Does our choice of substance-related terms influence perceptions of treatment need? Journal of Drug Issues, 40(4), 805–818.
  • Park, J., et al. (2021). Physician use of stigmatizing language in patient medical records. JAMA Network Open, 4(7).
  • World Health Organization. (2023). Addressing stigma and discrimination in health care settings.
  • National Institute on Drug Abuse. (2024). Words Matter: Preferred Language for Talking About Addiction.
  • Canadian Centre on Substance Use and Addiction. Overcoming Stigma Through Language: A Primer.
By Marta Santos in Noticias