Da pré-reinserção à reintegração socioprofissional

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02 Mai / Da pré-reinserção à reintegração socioprofissional

Da pré-reinserção à reintegração socioprofissional de dependentes reabilitados: obstáculos e oportunidades.

 

Este artigo pretende contribuir para a explicação do trabalho realizado pela Dianova no âmbito da reintegração social.

O programa de tratamento das dependências na Dianova oferece uma atenção personalizada e adaptada às necessidades de cada pessoa. O programa está sistematizado em três fases: Adaptação, Consolidação e Pré-Reinserção.

A pré-reinserção corresponde à fase do programa de tratamento que tem como objectivo a Reinserção Social dos dependentes em reabilitação. É nesta fase que se pode observar a consolidação do que foi adquirido ao longo do tratamento nas diferentes dimensões do mesmo:

> bem-estar físico e psicológico;

> relações familiares e interpessoais;

> situação jurídica;

> inserção laboral/académica

> e inserção comunitária e social.

O trabalho desenvolvido é sustentado numa metodologia de responsabilização individual. A Dianova acredita que as pessoas podem encontrar me si mesmas os recursos e capacidades para superar a sua dependência, proporcionando-lhes os meios adequados. Assenta ainda no envolvimento da família nos processos de pré-reintegração. E em partciular na construção de projecto de vida que atenda às necessidades e possibilidades de cada utente com vista a uma adaptação ao todo social.

 

Elaboração de Projecto de Vida

Merece aqui referir que o Projecto de Vida é um instrumento de trabalho construído pelo utente e com o apoio/orientação da Equipa Terapêutica. Este permite sistematizar a distância entre a condição actual do utente e as suas necessidades.

> Facilita a exploração de diferentes cenários através duma visualização mental do ponto de partida e do ponto de chegada.

> Bem como a identificação dos meios necessários e dificuldades para a consecução do mesmo.

> As expectativas do utente são amplamente trabalhadas durante a elaboração do Projecto de Vida de modo a haver um equilíbrio entre a idealização e o concreto.

Abordar o conceito de pré-reintegração num programa de tratamento tem em linha de conta que se trata de um momento com maior aproximação ao contexto exterior. Desse modo, durante esta etapa facilita-se a integração dos utentes em actividades de voluntariado (formação em contexto real de trabalho) ou em actividades formativas.

Este momento é fundamental na medida em que enseja a interactividade entre o utente a sociedade bem como uma aproximação gradual ao exercício pleno cidadania. E, simultaneamente, fornece novos inputs para avaliação do comportamento do utente.

Desafios da Reintegração Socioprofissional

O conceito de reintegração socioprofissional tem vindo a assumir novos contornos à medida que se verifica o aumento do peso significativo de outras variáveis. Nomeadamente as redes de sociabilidade, como a família e a comunidade e actividades de lazer na concretização / implementação dos projectos de vida.

Nesta medida, poderá constituir-se como um obstáculo a esta fase a ausência:

> dum suporte de retaguarda que vincule relacionamentos satisfatórios e equilibrados,

> que estruture e facilite o processo de tomada de decisão,

> que cuide e ampare na gestão das frustrações.

 

Estas são não só constatações empíricas, como observadas nas conclusões do Estudo científico de follow-up “Trajectórias: da dependência à reinserção”, desenvolvido pelo CIES-ISCTE-IUL . O estudo seguiu as trajectórias de reintegração social entre 2009 e 2013 de utentes que completaram programa Dianova.

A este respeito importa referir que o vínculo com a equipa terapêutica assume-se, na maioria das vezes, como o agente de suporte ao processo de reintegração.

Quando pensamos, ainda, em obstáculos à reintegração socioprofissional não podemos deixar de excluir:

> o baixo nível habilitacional e de qualificações;

> e a reduzida experiência profissional.

É, muitas vezes, uma população com vulnerabilidades que contribuem para baixos níveis de tolerância à frustração e níveis de resiliência pouco estruturados. Tal pode comprometer a manutenção do posto de trabalho. Por outro lado, a precariedade do vínculo laboral concorre como obstáculo adicional a um efectivo processo de reintegração.

 

A Empregabilidade como factor crítico na prevenção de recaída e sucesso da reinserção

Em sentido positivo, podemos observar como oportunidade a evolução ao longo do processo integral de tratamento da noção do papel do emprego. Este é visto não apenas como meio de obtenção de rendimento, mas também como factor estruturante da identidade do indivíduo e de integração na sociedade. Particularmente, pelo facto de lhe garantir laços objectivos (poder de compra, descontos para os impostos, segurança social, etc.) e subjectivos (sociabilidades especificas) com o funcionamento do sistema societal.

O trabalho tem impacto a diversos níveis da vida do indivíduo, quer seja a nível pessoal, familiar, social e/ou comunitário.

> A nível pessoal dá oportunidade de desenvolver novos papéis como membro produtivo da sociedade.

> A nível familiar possibilita o acesso a um rendimento que permite apoiar a família financeiramente.

> Constitui-se igualmente como elemento estruturador do quotidiano promovendo a criação de relações sociais para além da família.

A reintegração socioprofissional de dependentes reabilitados é um processo multidimensional que carece de intervenções globais e sistémicas, externas e a jusante do processo de tratamento, que favoreçam a sustentabilidade dos projectos. A abordagem deverá incidir na supervisão/manutenção dos comportamentos e das atitudes dos dependentes reabilitados. Bem como no relacionamento colaborativo junto das instituições, dos agentes sociais e económicos.

 

 A necessidade de novas medidas públicas

Neste contexto, e concluindo, não podemos deixar de considerar o actual contexto socioeconómico e as mudanças que ocorreram em termos sociais associados ao mesmo, nomeadamente no que concerne às questões relativas da empregabilidade. Num contexto recente de maior constrangimento económico, salientamos a extinção de algumas das medidas de Apoio ao Emprego. 

 

Medidas essas que eram estruturantes e fundamentais no processo de reintegração socioprofissional. Especificamente, o Programa Vida – Emprego e Empresas de Inserção que se revelavam determinantes neste processo.

 

Esta é uma área que exige um esforço colaborativo conjunto entre sectores público e social. O objectivo é uma plena efectiva reintegração socioprofissional de populações mais vulneráveis. Exortamos assim aos decisores políticos e governamentais que se recriem políticas e medidas favorecedoras do processo de reinserção social. Por uma sociedade mais equitativa, inclusiva e sustentável a prazo.

2 de Maio de 2018