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22 Jun / Artigo “Por que razão o “tempo de ecrã” importa” por Dr Kimberly S. Young

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Por que razão o “tempo de ecrã” importa | A Dependência Online

Dr. Kimberly S. Young, Fundadora do Netaddiction.com e The Center for Internet Addiction Recovery

Se por um lado o uso da tecnologia enquanto ferramenta de aprendizagem augura um futuro promissor para as nossas crianças, a sua má utilização e um tempo de ecrã em demasia, por outro lado, pode ter o efeito oposto. A investigação demonstra claramente que demasiado “tempo de ecrã” está relacionado com a falta de sucesso escolar – más notas, dificuldades na leitura, falta de atenção, pensamento lento, e problemas sociais.

Não é difícil de ver como a TV, os videojogos, e as actividades na Internet podem interferir com uma alimentação e padrões de sono saudáveis, e com a realização de trabalhos de casa.

Menos explorada está a questão de como o “tempo de ecrã” pode roubar as crianças de oportunidades para desenvolver competências essenciais de aprendizagem. Novos estudos na área da neurociência demonstram que demasiado “tempo de ecrã” – em oposição a insuficiente “tempo face-a-face” – está a reconfigurar o cérebro das crianças, dificultando a aprendizagem em sala de aula e a relação com professores e os outros alunos.

Mensurando a Dependência do Ecrã

Dada a popularidade da Internet (incluindo a designação Websites, Redes Sociais, Jogos Online, Apostas Online, via PC / Laptop, Smartphones ou Tablets), detectar e diagnosticar a Dependência Internet é muitas vezes difícil. O seu uso regular pode facilmente mascarar o comportamento aditivo, motivo pelo qual desenvolvi o Questionário Diagnóstico de Dependência Internet (IADQ, sigla em inglês) como instrumento de avaliação para o diagnóstico.

O questionário é o único critério baseado em DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e é largamente utilizado na investigação:

  1. Sente-se preocupado com a Internet (pensa em actividades online anteriores ou anseia pela sessão online seguinte)?
  2. Sente a necessidade de usar a Internet em períodos de tempo cada vez maiores para alcançar satisfação?
  3. Tentou repetidamente, e sem sucesso, controlar, diminuir ou parar a utilização da Internet?
  4. Sente-se agitado, mal-humorado, deprimido, ou irritado quando tenta diminuir ou parar a utilização da Internet?
  5. Fica online mais tempo do que aquele que pretendia originalmente?
  6. Já pôs em perigo ou arriscou a perda de uma relação, de um emprego, de uma oportunidade de educação ou de trabalho por causa da Internet?
  7. Já mentiu a familiares, terapeutas ou outros para esconder o nível de utilização da Internet?
  8. Usa a Internet como um escape para os seus problemas ou como forma de aliviar um estado de disforia (e., sentimentos de impotência, culpa, ansiedade, depressão)?

Diagnóstico de dependência Internet

São consideradas “dependentes” as pessoas que respondam positivamente a cinco ou mais questões. Características associadas incluem ainda:

  1. utilização excessiva da Internet;
  2. negligência das tarefas diárias ou responsabilidades;
  3. o isolamento social;
  4. o comportamento reservado sobre as actividades online ou a súbita exigência por privacidade quando online;

De uma forma geral, a dependência do ecrã foca-se em critérios chave como preocupação, consequências, perda de controlo, abstinência.

 

Problemas associados ao excesso de “tempo de ecrã”

Demasiado “tempo de ecrã” pode retirar às crianças oportunidades de interagir com outras pessoas. É especialmente importante que as crianças pequenas tenham bastante prática de escuta, de fala e de leitura. A linguagem oral é crítica para a leitura, e ambas as competências são essenciais para o sucesso escolar.

Estudos demonstram que a quanto mais horas de televisão as crianças assistem mais baixo é o seu nível de leitura, pior é o seu desempenho e menor é a sua socialização no 1º ano de escolaridade.

De forma simples, as crianças devem prestar atenção nas aulas e concentrar-se para completar os seus trabalhos escolares. Quando as crianças se acostumam ao elevado nível de excitação, estimulação e recompensa instantânea que o ritmo alucinante dos programas de TV, dos videojogos e de surfar na Net providenciam, os seus cérebros não estão preparados para a aprendizagem em sala de aula. O perigo é o de que as crianças esperam ser entretidas, o que não acontecerá na escola ou no local de trabalho.

Muitos trabalhos escolares testam a capacidade da criança para se focar numa actividade. As crianças precisam de oportunidades para praticar a paciência e a persistência, para que estejam equipadas para qualquer tarefa, aborrecida ou desafiante, quer na escola como no emprego. Muito do conteúdo internet é entretenimento instantâneo, representando poucas oportunidades para praticar a paciência.

Problemas na Escola e em Casa

Professores reportaram que alunos do ensino básico e secundário demonstram mais dificuldade em apresentar ideias, na capacidade de pensamento de “nível elevado”, e na resolução de problemas. A resolução de problemas exige que os alunos desenvolvam a capacidade de pensamento crítico e criativo. E devem estar dispostos a dedicar tempo considerável a pensar profundamente sobre um problema.

Infelizmente, com tantas das suas horas produtivas passadas em frente ao ecrã, restam a muitos estudantes poucas horas para o pensamento aprofundado. Não só o “tempo de ecrã” interfere com o tempo para pensar, como a rápida entrega de conteúdo no ecrã apenas permite o pensamento superficial.  

Em média, as crianças dormem, pelo menos, uma hora a menos do que precisam por noite. Estudos indicam que televisões, computadores e telemóveis no quarto interferem com o descanso físico e mental de que os estudantes precisam.

Quanto mais tempo as pessoas passam ao computador, menos tempo despendem em interacção face-a-face com outros. As crianças que não têm “tempo face-a-face” suficiente podem perder oportunidades vitais para desenvolver competências não-verbais – tais como a leitura de expressões faciais ou de linguagem corporal. A leitura errada de mensagens não-verbais pode causar todo o tipo de problemas sociais na escola e ao longo da vida.

O que os pais podem fazer

Limitar o “tempo de ecrã” / internet

  1. A Sociedade Pediátrica Americana recomenda não mais de 2 horas de “tempo de ecrã” por dia. As crianças com menos de dois anos devem estar expostas o menor tempo possível.
  2. Mantenha computadores e televisões fora do quarto. As crianças precisam de um espaço privado para estudar, longe de distracções.
  3. Defina limites de “tempo de ecrã” antes da conclusão dos trabalhos de casa.
  4. Defina regras de casa para desligar os ecrãs na hora das refeições, durante a realização dos trabalhos de casa e uma hora antes de dormir. Garanta que o seu filho dorme o suficiente todas as noites.

  

Supervisionar Conteúdo

> Saiba o que o seu filho está a ver, jogar, ou a fazer online e o que está a ser ensinado. Lembre-se que os seus filhos irão apreender atitudes e valores dos programas a que assistem.

> Verifique o conteúdo e a classificação dos programas de TV, videojogos, música e filmes, e ensine as crianças a planear o seu “tempo de ecrã”.

> Use o controlo parental da TV e software de filtragem nos computadores.

> Limite a quantidade de conteúdo violento a que o seu filho é exposto e monitorize o seu comportamento depois de assistir a programas assustadores ou violentos ou de jogar videojogos.

> Garanta que babysitters e outros cuidadores estão conscientes das “regras da casa” relativamente ao “tempo de ecrã” e dos programas a que as crianças podem assistir.  

> Torne-se “Screen Smart” em conjunto – assista a programas de TV, jogue videojogos, e surfe pela Internet com os seus filhos. Fale com eles sobre o que estão a ver e ajude-os a questionar as mensagens e valores comunicados pelo conteúdo no ecrã. Crie o hábito de perguntar aos seus filhos sobre os programas ou filmes a que assistem ou sobre os sites que visitam.

> Fale com os seus filhos sobre conteúdo sexual e violento, os estereótipos e a imagem corporal nos media, e sobre as estratégias de publicidade direccionadas a crianças, assim com as mensagens irrealistas de muitos anúncios.

Em suma

  1. Seja um modelo a seguir. Limite o seu próprio “tempo de ecrã” e monitorize o que vê quando existem crianças por perto. Equilibre o “tempo de ecrã” com actividades para uma mente e corpo saudáveis.
  2. Escolha actividades que estimulem o crescimento cerebral saudável – conversa, leitura, artesanato, jogos de tabuleiro, canto, música, e actividades físicas, tais como desportos, jogos ao ar livre, ou caminhadas em família. 
  3. Para mais informação, visite http://netaddiction.com

vício do jogo

A Dr.ª Kimberly Young é psicóloga licenciada e especialista internacionalmente reconhecida em Dependências Internet.  

Fundou o Center for Internet Addiction em 1995 e é professora na Universidade St. Bonaventure. Publica inúmeros artigos e livros, incluindo: Caught in the Net, o primeiro a identificar a dependência Internet; Tangled in the Web; Breaking Free of the Web; Internet addiction: A Handbook and Guide for Evaluation and Treatment.

O seu trabalho foi destacado no: The New York Times; The Wall Street Journal; The London Times; USA Today; Newsweek; Time; CNN; CBS News; Fox News; Good Morning America e World News Tonight.