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21 Out / Testemunho de um Alcoólico

O Tratamento Educativo-Terapêutico e Ocupacional da Dependência do Álcool

Como entrou no mundo do álcool?

Bebia socialmente até uma certa altura da minha vida. Todavia, após a separação da minha namorada, os problemas pessoais com o meu pai que tentou suicidar-se, e quando vim passar um mês de férias a Portugal, comecei a beber diariamente.

Há quanto tempo abusa do álcool?

Cerca de dois anos e meio.

Que impacto teve o consumo na sua vida?

Primeiro, querer começar a beber diariamente, a pensar consecutivamente no álcool, e há cerca de um ano comecei a ter sintomas de abstinência: por exemplo, necessidade de consumir mais e sentia tremores.

Fisicamente já precisava do álcool seja para o que fosse. Por outro lado, independentemente de, na minha profissão, não poder conduzir sob o efeito do álcool, chegava ao fim do dia saturado porque precisava de álcool e não podia beber. Acabava por beber durante o meu descanso, o suficiente para ficar bem, e andei assim durante 7/8 meses.

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E a nível pessoal?

Como eu só vinha a casa uma vez por mês, aproveitávamos para almoçar ou jantar fora e sair com os amigos. Acabei por me afastar da minha namorada, porque queria mais os “amigos da bebida” e de sair.

Foi nessa altura que teve consciência que tinha um problema?

Sim. Houve uma altura em que me senti mal e fui ao hospital porque transpirava muito e tinha vómitos mesmo sem ter nada no estômago. Disseram-me que tinha que parar de beber porque tinha uma doença hereditária (familiares maternos morreram com cirrose) e em criança tive Hepatite A. Com estes problemas de fígado o meu médico disse: “Se queres continuar a viver, tens de parar com o álcool”.

Ganhei gordura no pâncreas e foi aí que me assustei, tendo tido inclusive de fazer hemodiálise. Fiz o tratamento e continuei a minha vida normal, sempre a beber. Pensava que me tinha tratado e que já podia beber novamente. No início, era mais moderado, mas depois recomecei com consumos muito elevados.

E depois?

Voltou tudo ao princípio, a vontade de beber constante, acordava de manhã e em vez ir beber um “cafezinho” eu ia “beber qualquer coisa”. Passei a beber sozinho para não ter que o fazer em frente aos meus amigos ou da minha família. Só depois de ter bebido é que ia ter com eles e dizia “não, não me apetece beber” porque já tinha bebido. As manipulações que fazemos quando somos dependentes.

Os problemas em casa tornaram-se mais violentos, e as agressões verbais tornarem-se em acusação de violência doméstica por denúncia dos vizinhos à Polícia. Acabei por separar-me da minha namorada.

Saí de casa e fui viver para casa do meu pai. Mas a minha situação com a minha madrasta também não era das melhores, porque eu sabia que ela traía o meu pai. Todavia, ele não aceitava muito bem a minha postura, até que viu com os próprios olhos e disse-me: “realmente tinhas razão filho”.

Acabei por sair da casa do meu pai porque não estava a dar-me bem com a minha madrasta, era uma situação diária insuportável, e eu estava a tentar deixar de beber. Comecei a trabalhar de novo e só bebia ao fim de semana. Estava a conseguir controlar-me, mas as discussões com o meu pai, por ele querer proteger a minha madrasta, fizeram-me entrar outra vez no mundo dos consumos.

Conte-nos um episódio que tenha acontecido antes de entrar na Dianova.

Foi esse episódio de violência e que me levou praticamente à rua. O consumo de álcool, por vezes, levava-me a não querer ir para casa naquele estado, porque não queria que a minha família me visse assim. Preferia passar uma noite inteira na rua e ir depois para casa. Sofri um pouco, mas foi pior porque fiz sofrer as outras pessoas.

Tinha consciência que não estava bem?

Não! Eu agora tenho consciência que sou alcoólico, na altura não achava, mas tinha consciência quando não estava bem para ir para casa, por estar bêbado. Não gostava que a minha avó ou o meu pai sofressem, não gostava que me vissem naquela situação, e acabei por tornar-me manipulador. Dizia à minha avó que estava em Alcântara (Centro de Acolhimento) para ela não se preocupar, desligava o telefone como se estivesse a dormir e no outro dia voltava para casa dela como se nada se tivesse passado.

O que o motivou a tratar-se?

O motivo que mais me marcou foi o facto de ter perdido quase tudo. Perdi a minha namorada e a confiança que ela tinha em mim. A minha filha também ficou chateada pela pessoa que eu era antigamente e por estar sempre bêbado. Não perdi a minha casa por um triz, e aliás, ainda não sei como estão as coisas. Deixei muita coisa para trás, por não me preocupar com nada e só agora é que eu estou a ver que vou precisar de tudo. Todas as minhas economias agora vão fazer falta.

É a primeira vez que faz um tratamento ou é reincidente?

É a primeira vez.

Como encontrou a Dianova?

Eu não sabia bem o que era tratamento, pensava que o tratamento para o vício do álcool era ficar internado numa clínica, pelo que procurei várias clínicas. A minha avó acabou por falar com uma Assistente Social do Lumiar que sugeriu Comunidades Terapêuticas (convencionadas com Ministério da Saúde).

Entretanto, estive na Associação Vitae de Alcântara durante cerca de 3 meses, passei pela Unidade de Alcoologia para fazer a desintoxicação, acabei por visitar a CT Quinta das Lapas Dianova, gostei imenso, tratei do processo e aqui estou.

E porque escolheu a Dianova?

Sabia de pessoas que tinham tido bons resultados e diziam que o tratamento era bom, que o espaço era excelente e que me aconselharam a vir para a Dianova. Quando fiz a primeira visita fiquei encantado, era o que andava à procura: de sossego, estar fora da confusão e ser bem sucedido no tratamento.

Há quanto tempo está na Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas?

3 Meses.

Como foi a sua integração na Comunidade Terapêutica?

Foi óptima, gostei imenso das pessoas que cá estão: o primeiro mês é aquela fase em que nós entramos, não conhecemos nada, andamos a apalpar o terreno, vemos como as coisas funcionam. Até hoje tenho-me adaptado super bem.

O que é que foi mais difícil de superar até agora?

Acho que esta fase, que estou a passar agora, é a pior fase. O primeiro mês é aquele em que entramos, conhecemos as pessoas e conhecemos as regras. É um mês que passa muito rápido, porque há ansiedade de receber um telefonema ou acesso à internet. Mas é tudo tranquilo e ainda estamos sob o efeito da medicação.

No segundo mês já estamos adaptados, conhecemos os cantos à casa, e corre tudo bem.

O terceiro mês, que é o que estou agora, está a ser a fase mais complicada, porque já é uma fase de sobriedade, sem consumo de álcool quase há 5 meses e sem medicação.

Parece que estou a ver um mundo que eu não conhecia, não sabia o que era ver o mundo com clareza, sóbrio. Está a ser diferente e até me acho estranho.

Não sei como realmente vai ser lá fora, se as pessoas vão olhar para mim de forma pejorativa. A ideia, quando sair daqui, é voltar ao activo, porque eu ainda estou na empresa, mas o que eu quero agora para a minha vida é estar sóbrio. Quero dedicar-me mais à minha vida, à minha namorada, sobretudo, não quero ser como era antigamente.

Que partido retira das actividades ocupacionais? Para si, qual o valor destas no tratamento?

As actividades são uma mais-valia e, até, se tivesse mais não me importava. Durante a semana estamos em actividades terapêuticas ou ocupacionais como tratar do jardim ou limpar os nossos quartos. Considero as actividades importantes, porque assim não andamos a pensar em problemas e passamos bem o tempo.

Considera que a terapia de prevenção de recaída lhe permitirá manter-se sóbrio e livre de consumos?

Acho que foi o melhor grupo em que entrei até hoje. Ainda estou no grupo, já estamos na sétima sessão e para mim é uma mais-valia, muito bom mesmo. Andamos a aprender ferramentas que são precisas lá fora, para saber como é que havemos de evitar o álcool.

O facto de não se sentir enclausurado, ajuda ao tratamento?

Sim, claro que ajuda! No princípio, fazia-me confusão estar nas actividades terapêuticas individuais e de grupos. Era o tipo de pessoa que não falava, apenas dizia “sim” ou “não”, nunca disse que era alcoólico. Nas entrevistas com as Psicólogas, eu dizia que nem bebia muito e só agora tenho noção do que é beber muito.

Já voltei a falar de novo com o meu pai, veio cá visitar-me, e ele próprio diz que eu já não sou a mesma pessoa. Que sempre soube quem eu era e os valores que me guiavam.

Qual acha que vai ser o maior desafio quando sair da Dianova?

Para mim, o meu maior desafio, vai ser a solidão. Tenho uma enorme vontade de não querer beber, nem posso, mas esse é o desafio. É por isso que estou a ver se evito retornar à minha vida profissional de antigamente, porque passava muito tempo sozinho na estrada.

Não vou evitar os cafés onde eu ia, mesmo que haja pessoas que dizem que tenho de fazer isso. Eu não posso escapar porque há álcool em qualquer lado. Não vou evitar ir ao supermercado, porque há bebidas à venda lá. Não me vou impedir de ir a um café com o meu pai, porque ele vai beber uma cerveja. Há coisas que não se podem evitar, mas sim aprender a lidar e a conhecer-me a mim próprio lá fora, sem consumos. Esse vai ser o grande desafio.

Deixe uma mensagem para quem ainda não encontrou tratamento.

Faça uma aposta no seu tratamento que é uma mais-valia e que, com certeza, vai conseguir ultrapassar o seu problema, assim como eu estou a conseguir. As pessoas devem enfrentar a vida e saber estar no mundo de forma sóbria.

Aprendemos a ver as coisas de outra maneira e a dar mais valor às pequenas coisas, que antes eram insignificantes. Estou muito grato por estar aqui na Dianova, foi uma boa escolha, tenho aprendido muito aqui.

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“Na maioria das culturas, o álcool é o depressor cerebral mais frequentemente utilizado e constitui uma considerável causa de morbilidade e mortalidade. Por exemplo, acidente de condução por consumo excessivo, faltas às aulas ou ao trabalho devido a ressacas. A dependência fisiológica do álcool é indicada pela evidência de tolerância ou pelos sintomas de abstinência. Nomeadamente, maiores níveis de ingestão e maiores problemas relacionados com o seu abuso.

A abstinência caracteriza-se pelo desenvolvimento de sintomas num período de 4-12 horas após a redução de um consumo mais continuado, prolongado e maciço. Entre as consequências psicológicas, físicas interpessoais e sociais adversas salientam-se: deficit de atenção, disfunção autonómica, descoordenação motora, tremores, alucinação, insónia, depressão, black outs, doença hepática, discussões violetas com o cônjuge, abuso infantil ou violência doméstica. Todavia, os indivíduos continuam a consumir álcool para evitarem ou aliviarem os sintomas de abstinência.” DSM-IV –American Psychiatric Association

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